quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Volta e meia - parte 6



- Você faz o que? – Ele parecia tão à vontade que eu me senti mais constrangida ainda por estar tão constrangida 

- Sou contadora. – Respondi me encolhendo. 

- Conta uma piada! – Ele sorriu. 

- Por que eu contaria uma piada? 

- Ué, você não é uma contadora? – E gargalhou. Eu só queria sair dali. 


** 

Margô é bem intencionada. O problema é que ela é fera em chantagem emocional e, mesmo tendo optado pela solteirice, parece não gostar nadinha que suas amigas vivenciem o mesmo. Quando recebi uma mensagem dela no meio da tarde me convidando para um happy hour, imaginei que o convite não viria sozinho. 

- Ele é super divertido, você vai adorar! – Garantiu ela ao telefone depois de 6 mensagens minhas recusando o convite. 

- Ele quem? – Eu sabia! Ela é muito previsível. 

- O Fábio, meu amigo. 

- Desculpe, não sei quem é. 

- Ah, não mencionei ele nas mensagens? Que lapso! Bom, o causo é que ele é um solteirão boa pinta e eu convidei ele pra ir com a gente no bar. 

Margô, eu recusei 6 vezes e não aceitei nenhuma, o que te leva a crer que vou a um bar com você e com o Fábio hoje? 

- Eu te conheço. Passo no seu escritório às 18h. – E deligou. Sim, ela me conhecia. Eu iria no maldito bar. 

*** 

Quando chegamos ele já estava lá. Era boa pinta mesmo, ostentava uma beleza humilde, nada muito chamativo, mas certamente não parecia alguém que me causaria repulsa. Pelo menos não enquanto estivesse quieto. Passadas as apresentações, fomos atendidos por um garçom exageradamente sorridente, mas isso me deixou contente, me distrair com sua alegria treinada foi a única maneira de não entrar em pânico quando Margô avisou que escolheria depois. Ela nunca escolhia depois, isso não cheirava bem. 

No instante em que minha batida de coco e o potinho de amendoim foram colocados em uma mesa até então formada por três pessoas silenciosas, Margô alegou que o celular estava no silencioso mas que havia alguém na linha. Sim, era o óbvio. Ela pegou a bolsa e saiu correndo fingindo atender o aparelho, mas eu sabia muito bem que ela estava apenas indo embora para forçar uma situação absurda com Fábio. 

E foi então que aquele diálogo aconteceu. “ele é divertido” ficou ecoando na minha cabeça e tudo o que eu queria era que ela voltasse, mesmo eu louca de vontade de enfiar a cara dela no pote de amendoim. 

Eu não ri da piada. Eu não sei como diabos ele poderia considerar aquilo engraçado. Disfarcei meu desconforto com um gole gigante de batida que me deixou tonta e mudei minha atenção para um telão ao fundo do bar passando clipes da Beyoncé. Eu não sei se ele percebeu ou não, mas seguiu falando bobagens contando apenas com alguns “ahans” meus e uma ou outra risadinha falsa. 

Pouco antes de completar uma hora que estava lá, concluí que Margô não voltaria. Tirei meu celular da bolsa e mandei uma mensagem para minha irmã pedindo que me ligasse; se ela pra sair fugida, que pelo menos a minha história fosse mais convincente. Ela o fez dois minutos depois; joguei uma nota de 10 na mesa, agarrei a bolsa e fiz sinal que atenderia o telefone na rua. 

Não voltei. 

Não sei dizer se me senti culpada por isso. Na minha adolescência esquisitona era comum o menino dizer que ia no banheiro e não voltar nunca mais, e duvido que qualquer um deles tenha perdido um segundo pensando no quanto eu fiquei chateada e insegura. Então dormi tranquila, mais cedo do que o normal sob efeito do álcool ingerido em alta velocidade, nem a lembrança que meus brincos ficaram no taxi que peguei pra voltar pra casa abalaram a paz de me ver segura em casa, longe de piadas infames e gente bem intencionada demais. 

Até que o celular tocou. Era Margô. Era a mensagem mais inacreditável que eu podia ter recebido na vida: “Eu e Fábio adoramos, vamos repetir amanhã?”. 

Desliguei o aparelho, acionei o despertador e me entreguei ao sono. Pelo visto, minha paz duraria muito pouco.

continua...

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