terça-feira, 18 de agosto de 2015

Volta e meia - Parte 5


                Analú tinha 17 anos quando entrou em nossa vida. Jovem, pobre, abandonada pelo namorado, desamparada pela família, era o retrato exato de uma pessoa vulnerável.

                Matias já tinha me traído algumas vezes. Homem bonito, bem-sucedido, hierarquicamente superior às mulheres com quem trabalhava e encontrando a esposa só de vez em quando, é a fórmula do chifre. Quando nos casamos eu já sabia que ele não era fiel, mas pensava naquela máxima do “ele pode transar com você mas é a mim que ele abraça quando volta pra casa”.

                Eu até convivia bem com isso e confesso que não fui santa nesses quase 10 anos de um marido ausente – ei, eu também tenho desejos, ok? – mas Analú ultrapassou todos os limites.

                Matias não se envolvia emocionalmente com nenhuma delas. Nunca teve efetivamente um caso, eram apenas transas casuais e ele mesmo me confessava algumas. Me incomodava que ele tratasse suas transas com o mesmo entusiasmo com que falava de picanha, mas eu era a esposa traída, vê-lo tratando essas mulheres com desprezo me consolava. E assim fui empurrando quase 10 anos da minha vida até aquela quarta-feira em que Analú ligou pro celular dele, em prantos.

                Ele estava no banho e era comum eu atender o telefone, ele me gritar instruções para pais apavorados de dentro do chuveiro e eu retransmitir. Naquele dia, assim que percebeu atendida a ligação, Analú falou, e falou sem parar. Estava assustada, dizia que tinha medo do futuro e que ele tinha sido a melhor coisa que o aconteceu, que estava com medo da reação da família quando soubessem que ela se envolveu com o médico do seu bebê e que precisa dele mais perto porque ela não sabia mais o que fazer.

                Não a interrompi, deixei desabafar. Sua voz juvenil me encheu de desespero e, enquanto eu ouvia seu desabafo, me dei conta que Matias havia ultrapassado absolutamente todos os limites. Quando ela terminou, eu perguntei sua idade.

                Ao ouvir minha voz, ela gritou. Um grito desesperado, um grito de uma dor que eu não teria como descrever, mas ali soube que havia uma pessoa com a alma destroçada do outro lado da linha. Ela desligou. Eu liguei de volta e, no instante que ela atendeu, pedi que se acalmasse.

                Ela chorou alto, como uma criança implorando colo. Deixei que chorasse enquanto ouvia o chuveiro cessando. Matias saiu de toalha do banheiro e me flagrou ao seu telefone com uma solitária lágrima na lateral do meu rosto. Sem dizer nada, se sentou sobre minhas roupas na poltrona do quarto e esperou o desenrolar da história. Quando ela se acalmou, respondeu minha pergunta.

                - 17, senhora.

                - Bianca. Meu nome é Bianca, pode me chamar assim.

                - Desculpe, Bianca...

                - Você sabia que o Matias é casado?

                - Sim, eu sabia... me perdoa...

                - Você não me fez nada. Quem tem um compromisso comigo é ele. Quer me contar o que aconteceu?

                - Eu... eu... to com tanto medo... meu bebê nasceu prematuro e o Matias cuidou de nós...

                - E vocês se envolveram, é isso? – Matias não me olhava. Permanecia parado com a cabeça baixa. Sequer esboçou uma defesa.

                - É... eu... meu Deus, me perdoa...

                - Analú, né? Apareceu esse nome no visor. Você está precisando de ajuda, certo? O que você precisa? – Analú caiu em mais uma crise de choro. – Olha só, ele não vai ficar com você. Não quero te machucar, eu estou te dando a real. Matias, além de casado comigo, não perde uma oportunidade de um sexo casual, então por favor, não pense que você encontrou uma saída pros seus problemas, porque não é o caso.

                - Eu sei... meu pai me disse que uma vagabundinha como eu não encontra homem decente... o Matias jamais ficaria comigo.

                - O Matias jamais ficaria contigo não porque você não merece um homem decente, mas porque ele NÃO É um homem decente. Simples assim. De material, o que você precisa?

                - Eu preciso basicamente tudo... eu to num quartinho de favor, tenho só mais uma fralda, duas roupas pequenas... eu... eu não sei o que fazer...

                - Me dá seu endereço, eu vou levar algumas coisas pra você.

                Analú me deu o endereço, pediu mais uma vez perdão e desligamos. Matias seguia ali sentado sem sequer levantar a cabeça.

                - Uma garotinha, Matias?

                - Eu fui fraco...

                - VOCÊ FOI UM MONSTRO, MATIAS! UM MONSTRO!

                - Bianca, não exagera, foi uma transa, eu não tenho culpa se a garota gamou!

                - Tem sim. Tem MUITA culpa! A garota sozinha, abandonada por todo mundo, tendo uma gestação de merda, um parto difícil, um bebê prematuro, inexperiente e imatura, aparece um doutor maduro e bonitão dando atenção muito além do seu trabalho, esperava o que dela? É ÓBVIO que ela ia ceder e ainda te achar o homem mais fantástico do mundo! Você explorou a vulnerabilidade dela por sexo!

                - Ai, Bianca... – Foi a minha primeira reação enérgica que não despertou ira nele. Dessa vez até ele entendeu que havia passado dos limites. – E agora?

                - Traição eu suporto. Explorar vulnerabilidade de garotinha indefesa passa de todos os meus limites de tolerância, Matias.

                - É o fim?

                - É. É o fim.

                - Bianca... – Matias, imóvel, chorou. Eu troquei de roupa e saí para comprar os itens que Analú precisava. E então a conheci. Era sofrida, aparentava ser muito mais velha, todo seu histórico de abandono estava estampado em seu rosto e seu olhar envergonhado.

                Conheci o pequeno Matias – porque sim, ela batizou seu bebê com o nome do meu marido porque acreditou de coração que ele se importava com ela. Não consigo imaginar o tamanho da dor que essa garotinha sentiu quando descobriu que ele não ligava, não dava a mínima. Mas eu me importava, e deixei bem claro para ela que não ficaria desamparada. Meu coração sangrava ao saber que meu marido havia a usado, explorado sua dor, seu abandono, mas sozinha ela não ia ficar. Nem ela nem o pequeno xará do homem para quem eu havia dito “sim” no altar.

                Cheguei em casa duas horas depois e Matias fingia dormir. Quando deitei, ele me abraçou e eu afastei seu braço de mim. Estava com nojo, mas isso não duraria. Vivemos por mais de um mês debaixo do mesmo teto depois disso, e agíamos como se nada tivesse acontecido. O divórcio começou a ser legalmente tratado, mas vivíamos como casal e por várias vezes ambos duvidamos que o fim de fato aconteceria.

                Mas algo em mim se quebrou, o fim aconteceu e eu permaneço oscilando entre o amor que eu ainda sinto e o total desprezo pelo homem de merda com quem eu casei.

                Segue o baile, ainda terão outras valsas para dançar.

continua...

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