sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Volta e meia - parte 4


                MÃE

                O visor do meu celular não deixava dúvidas e a única coisa que fui capaz de pensar enquanto tocava James Blunt me dizendo que sou linda (sim, é meu toque, me deixa) foi “ih, fudeu”. Ela sabia que eu e Matias vivíamos o que chamamos de “momento delicado”, mas não cheguei a contar pra ela que ele iria sair de casa.

                Claro que passar 4 meses numa vila longe da civilização com o namorado botânico me dava a desculpa perfeita pra não ter contado – “como você esperava que eu fosse te contar se você estava inacessível?” – mas ela me lembraria que eu podia acessar o número de emergência, e que provavelmente foi isso que minha irmã fez.

                - Oi mãe...

                - Que porra você está fazendo com a sua vida?

                - Também estou com saudade.

                - Ele foi embora mesmo?

                - Sim, foi.

                O minuto de silêncio. Como eu ODEIO o minuto de silêncio. Na adolescência ele sempre vinha pouco antes do “não” quando pedia pra ir nas festinhas.

                - Quem aprontou?

                A pergunta me pegou de surpresa. Em 4 dias sem Matias tinha chovido acusações de incompetência por não ter segurado o marido, era a primeira vez que alguém efetivamente PERGUNTAVA alguma coisa.

                - Ele.

                - Ah. Ele parecia um homem bom...

                - O pai também. – E ali eu estraguei o dia dela.

                Meu pai saiu de casa quando eu tinha 8 anos. Fui descobrir uns anos depois que eu tinha 4 meio-irmãos na minha faixa de idade, um inclusive nascido poucos meses depois de mim. Ele mantinha dois “casamentos” paralelos. As duas mulheres sabiam das outras, minha mãe acreditava de coração que era a única.

                Meu pai era gerente de negócios de uma grande exportadora de sei lá o que, e minha mãe não conseguia entender como um homem com o cargo dele ganhava tão pouco para depender tanto dos bicos que ela fazia como costureira. Nosso dinheiro era sempre contado, tudo era sempre difícil, e ela se sentiu ridícula por ter demorado tanto pra entender que ele sustentava várias outras pessoas, por isso o salário não durava.

                Quando ele saiu de casa, também num domingo, eu brincava de humilhar minha irmã, então com 6 anos, porque ela não conseguia ler palavras muito complexas e eu sim. Eu lembro que eles tiveram uma grande briga depois que o telefone tocou e que, umas 2h depois meu pai saía de casa com uma mala na mão.
                Foram alguns anos até a mãe nos contar o que aconteceu naquele dia: o último de seus filhos havia nascido naquela semana; a mãe desse bebê era jovem e inexperiente e ficou muito assustada com alguma coisa do bebê, o que a levou a quebrar a promessa de jamais ligar na nossa casa. Ela estava tão apavorada que, quando minha mãe atendeu, confessou tudo.

                Durante alguns meses minha mãe achou que era uma mocinha que engravidou por acidente depois de uma pulada de cerca, mas no fim das contas, quando oficializaram o divórcio, ela acabou descobrindo que ele tinha uma terceira mulher com 3 filhos dele e que essa mocinha mantinha um relacionamento com ele já por 3 anos antes da gravidez. E, como eu disse antes, as duas mulheres “extras” se conheciam, sabiam que ambas se relacionavam com o mesmo homem e que ele tinha uma família “oficial”.

                Depois da separação oficial, encontrei pouquíssimas vezes com meu pai, mas acabei mantendo um certo contato com os irmãos, o do meio da segunda mulher foi até padrinho do meu casamento, só o pequeno mesmo acabou ficando longe porque meu pai assumiu a terceira mulher como a “oficial” e optamos por ficar longe deles. Minha mãe, que sofreu feito um cão e foi discriminada por todo mundo, passou a orientar eu e minha irmã a não errarmos o alvo; tínhamos que ter o casamento perfeito.

                Ela amava o Matias. Ele parecia, na visão dela, ser o oposto do meu pai. Não vou dizer que não era, eu não podia comparar as ações de Matias com a canalhice do meu pai, mas ainda assim, eu sabia que seria um choque pra ela descobrir que o genro perfeito era igualmente patife. E tudo isso passou pela minha cabeça quando vi o “mãe” no visor. Mas a maneira como essa conversa terminou me derreteu.

                - Eu te amo, Bianca. To do teu lado. Conta comigo.


                Pela primeira vez desde a primeira madrugada divorciada, eu chorei. Só que dessa vez não foi de tristeza, foi de gratidão.

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