quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Volta e meia - Parte 1


                Ele arrumou as malas. Eu já sabia há muito tempo que isso aconteceria, mas a gente vai se enganando porque é mais fácil suportar a auto-mentira do que a verdade que aquela história que você lutou para um “felizes para sempre” está fadada a um “adeus”.

                Ele não parecia sofrer tanto quanto eu, mas ok, eu sofro demais, é natural que uma pessoa sensata não sofra tanto, certo? Matias é o cara centrado, que não demonstra sentimentos nem mostra os dentes, como posso condená-lo por não estar em prantos?

                Da porta do quarto, apenas observo. Como é metódico esse meu ex-amor! Todas as roupas impecavelmente dobradas de um jeito que nunca consegui com as minhas blusas, coitadas. Tivemos inúmeras brigas porque a poltrona do nosso quarto era meu verdadeiro guarda-roupa.

                Uma lágrima me escorreu enquanto ele buscava alguns livros. Era sempre ele quem comprava os livros que me entretinham nos seus dias de plantão e agora levaria todos embora. Bizarro pensar que o amava tanto mas a primeira lágrima escorreu quando vi meus amados livros entrando na outra mala. Ele iria amassa-los! Como podia um homem tão cuidadoso com suas roupas tratar livros daquele jeito!

                Mantive-me calada. Que audácia levar tudo aquilo embora! Já não bastava levar meu coração? Sim, porque Matias sabia do tamanho do amor que eu tinha por ele e que sua partida igualmente me partiria em duas – a mulher casada e a mulher solteira aos 35.

                Já seria a hora de começar a adotar gatos?

                Um beijo fraterno na testa – afinal, nos separamos mas não declaramos guerra – e a chave respeitosamente deixada na mesa da sala. Matias saía pela porta e eu me mantinha imóvel, com a minha velha camiseta do Ramones e a calcinha de algodão com estampa de cupido. Quanta ironia... várias transas começaram por causa daquele cupido.

                Assim, sem dramas, ouvi o barulho do carro se afastando da frente da casa sem saber se veria Matias outra vez. Provavelmente pra assinar nosso divórcio amigável, tudo muito rápido já que fiquei com a casa e ele com a casa da praia, tudo devidamente concordado por ambos. Não havia muito o que fazer. Eu odiava areia e a casa da mãe dele era mais perto do hospital, fechou todas. Só meu coração não fechou, tava ali sangrando discretamente enquanto eu ia calmamente à geladeira abrir o pote de sorvete que comprei exatamente pensando que a partida definitiva de Matias aconteceria naquele final de semana.


                Esse sim, foi um domingo de merda.

continua...


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