Ele arrumou as malas. Eu já sabia há muito tempo que isso
aconteceria, mas a gente vai se enganando porque é mais fácil suportar a
auto-mentira do que a verdade que aquela história que você lutou para um
“felizes para sempre” está fadada a um “adeus”.
Ele não
parecia sofrer tanto quanto eu, mas ok, eu sofro demais, é natural que uma
pessoa sensata não sofra tanto, certo? Matias é o cara centrado, que não
demonstra sentimentos nem mostra os dentes, como posso condená-lo por não estar
em prantos?
Da
porta do quarto, apenas observo. Como é metódico esse meu ex-amor! Todas as
roupas impecavelmente dobradas de um jeito que nunca consegui com as minhas
blusas, coitadas. Tivemos inúmeras brigas porque a poltrona do nosso quarto era
meu verdadeiro guarda-roupa.
Uma
lágrima me escorreu enquanto ele buscava alguns livros. Era sempre ele quem
comprava os livros que me entretinham nos seus dias de plantão e agora levaria
todos embora. Bizarro pensar que o amava tanto mas a primeira lágrima escorreu
quando vi meus amados livros entrando na outra mala. Ele iria amassa-los! Como
podia um homem tão cuidadoso com suas roupas tratar livros daquele jeito!
Mantive-me
calada. Que audácia levar tudo aquilo embora! Já não bastava levar meu coração?
Sim, porque Matias sabia do tamanho do amor que eu tinha por ele e que sua
partida igualmente me partiria em duas – a mulher casada e a mulher solteira
aos 35.
Já
seria a hora de começar a adotar gatos?
Um
beijo fraterno na testa – afinal, nos separamos mas não declaramos guerra – e a
chave respeitosamente deixada na mesa da sala. Matias saía pela porta e eu me
mantinha imóvel, com a minha velha camiseta do Ramones e a calcinha de algodão
com estampa de cupido. Quanta ironia... várias transas começaram por causa
daquele cupido.
Assim,
sem dramas, ouvi o barulho do carro se afastando da frente da casa sem saber se
veria Matias outra vez. Provavelmente pra assinar nosso divórcio amigável, tudo
muito rápido já que fiquei com a casa e ele com a casa da praia, tudo
devidamente concordado por ambos. Não havia muito o que fazer. Eu odiava areia
e a casa da mãe dele era mais perto do hospital, fechou todas. Só meu coração
não fechou, tava ali sangrando discretamente enquanto eu ia calmamente à geladeira
abrir o pote de sorvete que comprei exatamente pensando que a partida
definitiva de Matias aconteceria naquele final de semana.
Esse
sim, foi um domingo de merda.
continua...

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