sábado, 8 de agosto de 2015

Volta e meia - Parte 2


                Depois que Matias foi embora e eu devorei o pote de sorvete, me permiti chorar. Eu sabia que isso aconteceria, e que eu seria capaz de acabar com seca de qualquer região do país com a quantidade de mágoa que guardava dentro de mim. Foi então que percebi que estar em uma casa vazia não se parecia com nada além de um dia normal. Matias nunca estava aqui.

                O pensamento de “o que eu vou fazer agora?” que tentou me invadir a mente foi prontamente afastado por outro: “o que eu sempre fiz”. Ser casada com um pediatra especializado em neonatal plantonista de hospital te condena a uma solteirice com um anel no dedo. Eu estava agora apenas sem o anel.

                Naquela noite descobri a primeira vantagem do divórcio: Matias dormia em casa nos domingos, segunda era dia de consultório, então o plantão no hospital era sábado. Naquele domingo, pela primeira vez em quase 10 anos da minha vida, não fui acordada 63456765436 vezes de madrugada pela maldita musiquinha do celular dele. Pela primeira vez em quase 10 anos nenhum pai assustado interrompeu o meu sono.

                Nada. Só a paz, o silêncio e... eu acordada a noite inteira relembrando nosso momentos bons a dois chorando feito louca com mil álbuns de fotografia sobre a cama.

                Inferno.

                Fui trabalhar usando cosplay de panda.

                Mas provavelmente a pior coisa em ser uma mulher recém divorciada é que, enquanto teu ex tá recebendo o apoio dos amigos e os olhares interessados de outras mulheres, tu tá recebendo abraços inconformados de pessoas que acreditam piamente que tua vida acabou.

                Não xuxu, meu casamento acabou. Eu ainda to viva. Talvez mais viva do que nunca e... quem eu quero enganar? Eu pretendo me sentir plena novamente, e essa coisa toda linda de “podemos ser feliz sozinhos”, mas por hora, fico pensando a que horas o Matias vai me mandar o sms convidando pra almoçar. Ele não vai.

                Bola pra frente e... ah, não, a turma do escritório trouxe flores... é, eles acham que minha vida acabou e estamos no meu funeral.


                Tá bom, eu to realmente parecendo um zumbi. Mas não se iludam, essa história ainda não acabou. Estamos apenas começando.

continua...

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