- Bianca! Meu Deus, amiga, e agora?
Quando
eu aceitei almoçar com a Gê, minha amiga de faculdade, eu tinha certeza que
nossa conversa seria muito parecida se a notícia fosse uma doença terminal, e
não um divórcio. Gê tinha um sonho romântico típico de uma garotinha de 12
anos, estava presa em um casamento de merda porque né, “felizes para sempre”,
lembra?
- E
agora o que? – Falei fingindo não ter entendido entre uma garfada de repolho e
outra (mais uma vantagem da solteirice, comer repolho sem medo de matar o
parceiro durante a noite).
- Como
“o que”? Meu bem, o Matias foi embora!
- Sim,
e daí?
- O que
você vai fazer sem ele?
-
Absolutamente tudo! Ontem mesmo abri um pote de pepino em conserva sozinha!
Gê
suspirou. Largou o corpo no encosto da cadeira ainda com aquele olhar de
piedade que ostentava desde que saiu do carro. Eu sabia que seria um almoço bem
longo e ligeiramente irritante.
- Mas
Bianca... – baixei a cabeça e fingi me deliciar com o repolho enquanto esperava
a próxima bomba. – Por quê?
-
Porque eu tenho um corpo com a integralidade de suas funções intacta, sou
alfabetizada, o que me permite ler manuais de instrução e pra quase tudo tem
tutorial no youtube.
- Não,
sua boba, porque você deixou ele ir?
- Como assim?
-
Amiga, marido a gente segura com todas as forças!
Me
engasguei. Olhei ao meu redor para ver se apareciam pessoas vestidas com a moda
vitoriana. Certeza que eu tinha viajado no tempo durante as garfadas de
repolho. Respirei fundo, tentei levar em consideração que Gê era uma moça legal
criada por uma família extremamente conservadora; não era culpa dela reproduzir
as revistas do começo do século passado.
-
Desculpe Gê, a gente só segura marido com todas as forças se ele estiver
pendurado num penhasco. E com todo respeito, nem todo mundo tem o mesmo prazer
que você de ser corno manso. – Falei sem olhar seu rosto, sem pensar duas
vezes, e eu sabia que não terminaria bem.
Gê
ficou estática. Demorou pelo menos um minuto para mudar a expressão de horror
que se estampou em seu rosto. Largou os talheres sobre a mesa calmamente, como
uma boa lady, me olhou fixamente e, enquanto levantava devagar para não chamar
a atenção, falou:
- Você
é uma vaca, não é à toa que foi largada. – A calma em sua voz disfarçava bem
sua vontade louca de me estrangular ali mesmo.
Permaneci
sentada ali enquanto ela ia embora deixando para mim toda a conta do almoço.
Tenho a nítida impressão de que perdi a amiga.

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