terça-feira, 11 de agosto de 2015

Volta e meia - parte 3


                 
                - Bianca! Meu Deus, amiga, e agora?

                Quando eu aceitei almoçar com a Gê, minha amiga de faculdade, eu tinha certeza que nossa conversa seria muito parecida se a notícia fosse uma doença terminal, e não um divórcio. Gê tinha um sonho romântico típico de uma garotinha de 12 anos, estava presa em um casamento de merda porque né, “felizes para sempre”, lembra?

                - E agora o que? – Falei fingindo não ter entendido entre uma garfada de repolho e outra (mais uma vantagem da solteirice, comer repolho sem medo de matar o parceiro durante a noite).

                - Como “o que”? Meu bem, o Matias foi embora!

                - Sim, e daí?

                - O que você vai fazer sem ele?

                - Absolutamente tudo! Ontem mesmo abri um pote de pepino em conserva sozinha!

                Gê suspirou. Largou o corpo no encosto da cadeira ainda com aquele olhar de piedade que ostentava desde que saiu do carro. Eu sabia que seria um almoço bem longo e ligeiramente irritante.

                - Mas Bianca... – baixei a cabeça e fingi me deliciar com o repolho enquanto esperava a próxima bomba. – Por quê?

                - Porque eu tenho um corpo com a integralidade de suas funções intacta, sou alfabetizada, o que me permite ler manuais de instrução e pra quase tudo tem tutorial no youtube.

                - Não, sua boba, porque você deixou ele ir?

                - Como assim?

                - Amiga, marido a gente segura com todas as forças!

                Me engasguei. Olhei ao meu redor para ver se apareciam pessoas vestidas com a moda vitoriana. Certeza que eu tinha viajado no tempo durante as garfadas de repolho. Respirei fundo, tentei levar em consideração que Gê era uma moça legal criada por uma família extremamente conservadora; não era culpa dela reproduzir as revistas do começo do século passado.

                - Desculpe Gê, a gente só segura marido com todas as forças se ele estiver pendurado num penhasco. E com todo respeito, nem todo mundo tem o mesmo prazer que você de ser corno manso. – Falei sem olhar seu rosto, sem pensar duas vezes, e eu sabia que não terminaria bem.

                Gê ficou estática. Demorou pelo menos um minuto para mudar a expressão de horror que se estampou em seu rosto. Largou os talheres sobre a mesa calmamente, como uma boa lady, me olhou fixamente e, enquanto levantava devagar para não chamar a atenção, falou:

                - Você é uma vaca, não é à toa que foi largada. – A calma em sua voz disfarçava bem sua vontade louca de me estrangular ali mesmo.


                Permaneci sentada ali enquanto ela ia embora deixando para mim toda a conta do almoço. Tenho a nítida impressão de que perdi a amiga.

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