sábado, 22 de agosto de 2015

O artista não é louco

                Ser capaz de viver em fantasia é um privilégio reservado aos loucos, diriam uns. Não é verdade; creio ser possível que até os que se consideram os mais “normais” possam mergulhar em sonhos bons e projeções irreais de sua vida. Por que não?

                Tenho por hábito debater temas atuais pertencentes ao mundo real, e isso é parte da minha vida desde o mais antigo raiar da infância. Sempre busquei informação sobre os mais diversos assuntos e ouvir as mais diversas versões sobre um único fato. Entretanto, recentemente meu conhecimento de “vida real” foi colocado em dúvida mais de uma vez pela minha facilidade de criar um mundo novo, imaginário.

                Ora, não sejamos desonestos; não creio que seja assim tão surpreendente que um artista seja plenamente capaz de conhecer a realidade de forma profunda e embasada. Por sinal, quem acompanha meus trabalhos literários sabe que não produzo o gênero fantasia, que levo a realidade para a ficção, e jamais trouxe a ficção para a realidade.

                Talvez, por sinal, eu seja muito mais capaz de separar a realidade da fantasia que crio (no sentido de pessoas que não existem, e não de mundos inexistentes criados por mim) do que meus acusadores, exatamente porque cruzo o limite de ambos desde que me conheço por gente e conheço os caminhos como poucos. É muito fácil para um viajante saber em que traço da estrada começa a cidade do que para aqueles que sempre estiveram na cidade, sem conhecer com precisão suas fronteiras.

                Então você pode pensar que sou uma pessoa ressentida e que escrevo esse texto para reclamar da vida. Não te tiro a razão, tem uma semana a última acusação e isso bem martelando minha cabeça, por não ter sido a primeira vez. Mais de uma vez usaram um talento que eu tenho – e que deveria ser motivo de celebração – para me desqualificar enquanto cidadã, enquanto estudiosa, enquanto uma pessoa que sempre buscou um conhecimento social suficiente para compor uma opinião sem achismos ou sensos comuns.

                Enquanto vivo as madrugadas em visitas à ficção, vivo os dias no mundo real. Percorro 2km a pé até a faculdade diariamente, depois de um dia de trabalho lidando com pessoas e situações absolutamente reais. Observo bem o mundo ao meu redor e tenho contato com dezenas de pessoas e profissionais em nada relacionados à literatura, mas ao direito – leis, sociedade, política, VIDA REAL.

                Sim, é de me ofender profundamente que desqualifiquem opiniões embasadas sob o manto da minha produção literária – aquela que JAMAIS me tirou da realidade uma vez que sou artista e não portadora de esquizofrenia em um nível grave o bastante para pertencer a esse mundo somente o corpo. Alegar que os poucos minutos que tenho de tempo para produzir literatura me impedem de ter um conhecimento técnico-científico é sim ofensivo porque coloca em dúvida não apenas um esforço de uma vida inteira de estudos e pesquisas, como apaga da minha vida mais de 15h do meu dia.

                Resumir-me à minha literatura por si só não me é de fato ofensivo. Sou perdidamente apaixonada pela literatura e de minha vontade dedicaria de bom grado minha vida às histórias que crio. Mas não, minha vida de longe não é “só” isso.

                A desqualificação do debatedor é estratégia comum, embora baixa, em qualquer debate - na ausência de um contra-argumento, coloque em dúvida o debatedor – mas sim, me incomoda quando a desqualificação usa minha literatura como arma. Já fui chamada de mil coisas das quais inclusive achei graça por expor a incapacidade do “opositor” em manter um diálogo fincado em sua oposição a mim, ele se vê sem alternativas porque a única opção além da ofensa é concordar comigo.

                Sim, é comum. Confesso que já me vi nessa posição diversas vezes. Em algumas reagi com baixaria partindo para a agressão ao opositor, em outras refleti sobre o tema e, por consequência, repensei meu posicionamento. Mas quando a desqualificação puxa a literatura como argumento irrefutável de que não tenho condições de debater um tema de vida real, algo que me é muito caro – a literatura – torna-se uma arma, uma ofensa, uma agressão, o que torna o uso desse argumento duplamente ofensivo.

                A arte é seguidamente marginalizada. O artista é seguidamente tratado com desdém como se, por seu talento, fosse um tipo inferior de cidadão, ou até mesmo não fosse um cidadão. Isso ficou ainda mais claro quando, debatendo sobre uma arbitrária e nojenta proibição de intervenções artísticas em praça pública, o opositor argumentou que a “praça é para os cidadãos”. E nós, artistas, o que somos?

                O artista não é louco, o artista não é lixo. Arte não é luxo, não é bobagem. Arte salva vidas, projetos artísticos reduzem a criminalidade e não é à toa. Já estamos em 2015 e a arte existe desde que existe o homem; a arte, por sinal, é a maneira como as civilizações se perpetuam, são vistas, lembradas e estudadas mesmo quando extintas a milênios.


                A arte sobrevive. A arte não tem prazo de validade e não é efêmera. A arte VIVE e é imortal. Respeite a arte, respeite o artista, existe uma boa chance de esse artista que você trata com desdém ser lembrado para sempre .


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