sábado, 15 de agosto de 2015

Erich em resumo

Conto premiado em 2009.

                Fomos crianças na mesma época, tínhamos somente 3 dias de diferença, mas parecia que tínhamos nascido em planetas diferentes. Eu o olhava as vezes e tinha inveja de sua normalidade. Para ele tudo parecia tão simples que eu me questionava o que havia de errado comigo. Tínhamos uns 6 anos quando o olhei de um jeito diferente. Ele era todo bonito, tinha aqueles cabelos cor fogo e os olhinhos verdes como os meus. Eu não precisei de muito tempo para entender que o amava, eu só não era capaz de entender de que forma me vinha esse amor.

                Éramos dois moleques que jogavam bola na rua num tempo em que isso ainda era possível na cidade grande. Eu jogava porque meu pai tinha grandes ilusões sobre seu único filho homem, enquanto invejava minhas irmãs, uma gêmea e outra mais velha, que podiam ficar dentro de casa com suas bonecas, sem machucar o joelho, sem morrer de medo de chorar. Mas os jogos tinham suas vantagens, ele fazia gol e me abraçava, esse era o melhor momento do meu dia, todos os dias.

                Tínhamos o mesmo nome composto, Erich Alexandre, a mãe dele gostou do meu nome e o registrou da mesma forma. Como sou mais velho, fiquei conhecido pelo primeiro e ele pelo segundo nome. Ter nomes iguais e sobrenomes parecidos tornou a nossa relação ainda mais divertida. Éramos dois meninos que não se desgrudavam, o ruivinho e o loirinho, com esmeraldas nos olhos, ele com sardas e eu com meus cílios longos que irritavam minhas irmãs na adolescência.

                Mas quis o destino que nossas vidas fossem separadas. Tínhamos 12 anos e eu sabia que era diferente dos outros meninos da escola. Ele me encantava muito mais do que as meninas, e enquanto nossos amigos esboçavam as primeiras tentativas de beijar da boca delas, eu me pegava distraído, perdido nas madeixas vermelhas que ele deixava crescer. Eu não tinha coragem de falar com ninguém, imaginei que a reação das pessoas não seria a melhor, e tinha medo de perder a companhia do meu amigo inseparável. Mesmo sem dizer uma palavra, foi isso que aconteceu. Sua família partiu e eu fiquei sem ele.

                Trocamos algumas cartas, mas nada podia se comparar às tardes de futebol, ou às vezes que conseguia sentir o cheiro de seu xampu enquanto ele falava das meninas da turma. Eu sentia falta dele como um amor perdido e me escondi do mundo. Eu tinha vergonha, vergonha por ser diferente, vergonha por amar o meu amigo de infância, vergonha por não conseguir beijar uma menina.

                Vinham as festinhas, eu começava a chamar a atenção com meu rosto delicado de quem se desenha para se tornar um homem pouco masculino, meus olhos verdes e meus cabelos loiros rebeldes. Não tardou para que os meninos começassem a pegar no meu pé, eu já nem conseguia disfarçar que não haveria nem menina nem mulher nesse mundo que seria tocada por mim.

                Com 15 anos minhas irmãs já desconfiavam que não teriam uma cunhada jamais, meu pai preferia não ver e eu preferia não mostrar. Eu tentava entender o lado deles, não é fácil para um pai aceitar que seu único filho homem... mexe com a tal honra masculina dele. Mas já era claro que eu não era um menino comum.

                 Estávamos perto do verão quando, acompanhado de amigas, encontrei aquele que me proporcionaria a certeza do que sou, e do que serei para sempre. Lembro que estávamos em um bar, tocava uma música ruim quando fui ao banheiro e vi que ele me seguiu. Gostei da ideia, ele parecia muito bonito de longe. O banheiro estava vazio, até porque o próprio bar não estava cheio. Ele se aproximou e, muito gentil, começou a conversar.

                - Eu o vi com umas meninas, alguma delas é sua garota? – Corei com o comentário, estava muito claro que ele saberia exatamente o que eu estava prestes a dizer.

                - Não, são somente amigas.

                - Eu sei, queria somente ter certeza. – Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele tocou meu rosto. Eu fechei os olhos, estava confuso, mas sabia que precisava viver aquilo para acalmar minhas dúvidas. Quando senti seus lábios encostando nos meus, quando senti o seu gosto da minha boca, senti meu coração se encher de coragem. Eu não era mais um garoto estranho, eu acabara de me descobrir, e decidi que jamais teria vergonha por jamais ter esquecido os cabelos cor de fogo do meu amigo de infância.

                Naquela semana mesmo, tendo beijado somente um rapaz em toda a minha vida, resolvi contar à minha família. Estava muito seguro, jamais havia permitido uma garota tocar em mim e havia apreciado o beijo dele, não poderia haver dúvidas. Não que eu esperasse qualquer reação efusiva da parte deles, mas jamais imaginei que minha mãe choraria mais do que se tivesse recebido a notícia da minha morte, nem que meu pai ficaria um mês sem falar comigo, e muito menos que a primeira coisa que ele me diria seria a convocação para visitar uma prostituta na semana seguinte.

                Bom, a visita não aconteceu, por força de minhas irmãs, que não permitiram, mas ninguém foi capaz de me salvar da surra que levei dos meninos do bairro depois que uma vizinha ouviu meu pai aos berros me chamando de “bicha”. As notícias corriam rápido por lá e não foi difícil para que me pegassem desprevenido, afinal, eu não era uma bicha, como meu pai meu chamou, eu era um homossexual, sem escândalos, sem trejeitos, eu era somente um menino que preferia meninos, simples assim.

                Acho interessante que os garotos se sentiram grandes machões vindo em um bando com mais ou menos 8 garotos contra um indefeso. Alguns ossos quebrados, cicatrizes e dias de hospital depois, meu pai, como todo bom pai, aceitou o filho gay, talvez pelo pânico de ver o jeito que fui deixado ao lado do campinho de futebol. Pouco mais de um mês depois do incidente, mudamos de casa, de bairro aliás, não podíamos continuar vivendo em um lugar onde as pessoas me olhavam como um criminoso ou um portador de alguma doença transmissível. E eu mudei de escola, porque mal voltei às aulas depois da surra e novas violências se desenharam com recados “simpáticos” e ameaças.

                Foi aí que deixei de me aceitar, deixei de me amar, porque onde quer que eu fosse, o preconceito insistia em me acompanhar. Aos 16 anos fui apresentado “à vida adulta” da forma mais brutal que consigo imaginar. Desisti de viver. Eu me sentia sozinho no mundo, vivendo e revivendo na minha cabeça cada ameaça, cada demonstração de desprezo, cada ofensa, e ainda tentando imaginar como estaria meu amigo de infância.

                Aos 17 anos eu o reencontrei. Eu oscilava entre a infelicidade extrema, o desejo de morrer, e a esperança de um futuro melhor. Eu já não sabia se tinha vergonha ou não de mim mesmo, eu não sabia o quanto era ou não digno de respeito. Era com freqüência tratado como inferior. Mas tudo isso ficou tão pequeno perto dos cabelos cor de fogo. Ele estava lindo, com cabelos longos e os olhos tão verdes quanto os meus. Fiquei imensamente feliz quando ele me reconheceu e correu na minha direção com aquele sorriso que me tira o fôlego.

                Com os cabelos ao vento, ele se jogou nos meus braços; era um abraço amistoso, mas eu senti o tempo parar enquanto me entorpecia em seu perfume e tocava as partes de seu corpo que a etiqueta permitia. Um beijo no rosto e o rubor tomou conta de mim. Passamos horas conversando, relembrando nossa infância, relatando nossas aventuras ao longo da juventude. Ele me contava suas aventuras com meninas e a cada nova história eu sentia como se uma faca me atravessasse o peito, eu tive certeza que passaria o resto da minha vida lamentando não poder ser uma mulher, a mulher que o teria para sempre.

                Mas o destino tem suas surpresas e, pouco mais de duas semanas depois do reencontro, fomos com nossas famílias a uma chácara, nos arredores da cidade. O tempo estava instável, mas insistimos em passear em uma área distante da casa, com uma cascata e um pequeno córrego. Falávamos todo tipo de futilidade quando começou uma chuva bastante forte, ele me puxou pelo braço para corrermos, poucos metros à frente fomos vítimas da lama, e eu caí sobre ele.

                A chuva era cada vez mais forte e as gotas do meu cabelo caíam em seu rosto. Eu senti que sua respiração ficou pesada e seu coração, como o meu, disparou, mas ele não esboçou qualquer reação. Por um impulso, resolvi arriscar e o beijei. Ele me abraçou com força durante o beijo, não deixando que me afastasse um centímetro sequer. Foi um beijo longo e apaixonado, foi muito além dos meus sonhos mais otimistas.

                Quando nos levantamos, seus cabelos estavam cobertos de lama. Sem dizer uma palavra, nos jogamos no córrego, já estávamos encharcados de qualquer forma. Nadando debaixo de chuva forte, ele tomou a iniciativa, me beijando com força, como se temesse que eu pudesse partir.

                - Não tinha certeza se não me odiaria por isso. – Comentei quando voltávamos para a casa, tempo depois.

                - Não te odiaria, eu tinha muita curiosidade de experimentar. Mas então você é mesmo gay? – Me perguntou, deixando-me surpreso e confuso.

                - Sim, sou, você não é?

                - Não, não sou. Como eu disse, só queria experimentar. – Naquele momento senti meu mundo desabar, depois de criar tudo o que é tipo de ilusão, depois de imaginar que entraríamos abraçados na casa avisando que formaríamos um casal a partir de então.

                Depois daquele dia começamos a nos falar cada vez menos, eu tinha certeza que meu destino de solidão e amor não correspondido estava selado. E tive que aceitar encontrá-lo nas poucas festas que fui sempre acompanhado de mulheres. Aquilo me partia o coração de tal modo que resolvi me fechar em casa, era melhor que encarar a dolorosa realidade.

                Dois dias depois do aniversário de 20 anos dele, ele me procurou, estava confuso, não sabia o que fazer, não sabia o que sentia. Ele estava sozinho em casa e pediu que eu fosse vê-lo. Eu fui sem ilusões, não queria mais me machucar. Bebemos um pouco, relembramos bons momentos e relembramos a tarde chuvosa da qual eu sabia cada detalhe. Ele sorriu, era o primeiro sorriso da noite, passou a mão nos meus cabelos e se aproximou do meu rosto.

                - Por favor, me perdoe por todos esses anos... – Falou baixo no meu ouvido, beijando suavemente meu rosto até alcançar a minha boca. Eu não ofereci resistência, mas tinha medo de me machucar mais ainda.

                Como um adolescente irresponsável, me deixei levar pelo vinho e pelo amor que ainda sentia por ele. Naquela noite nos amamos pela primeira vez. Era minha primeira noite de amor de verdade e a primeira vez que ele se entregava à sua realidade, que ele tanto insistia em negar. Quando acordei na manhã seguinte, ele estava sentado em uma cadeira, diante da cama; pensei em sorrir, mas ele não parecia feliz.

                - É melhor você ir agora. – Falou ele sem olhar para mim. Meu coração se partiu outra vez.
                - Aconteceu alguma coisa? – Perguntei incrédulo.

                - Como assim “aconteceu alguma coisa”? – Ele chorava. – Que pergunta idiota, Erich! Claro que aconteceu!   

                - Sim, Ale, eu sei bem o que aconteceu, eu pergunto se aconteceu algo errado.

                - Olha só. – Disse ele levantando-se e ficando de costas para mim. – Você é gay, mas eu não!

                - Vai falar de novo na curiosidade de experimentar? – Eu começava a ficar irritado.

                - Eu sei das coisas que te aconteceram, não quero isso pra mim.

                - Você não pode ir contra a sua natureza a vida toda, caramba!

                - Quer apostar?

                - Ah, legal, você acabou de admitir que a sua natureza é a mesma que a minha, você é gay e você gosta de mim! Vai fugir até quando? – Eu começava a gritar.

                - Isso é problema meu, vai embora!

                Eu não disse mais nada, peguei minhas roupas, me vesti o mais rápido que consegui e saí batendo a porta. Estava ainda mais irritado com a vida, o meu sonho podia ser real, ele era igual à mim e me amava, mas tinha medo, e eu não lhe tirava a razão, mas tudo o que eu queria era ser feliz ao lado do meu amor, por que era tão difícil tornar isso uma realidade?

                Nos afastamos novamente, terminei a faculdade e me joguei de cabeça no meu trabalho, lutando dia após dia para tira-lo da minha cabeça e do meu coração. Encontrava às vezes ele no campus, dessa vez sozinho, nunca mais o vi na companhia de mulheres. Ele me cumprimentava de longe, mas não vinha falar comigo, e eu fazia questão de ficar longe, eu não podia ser novamente a pessoa em que ele descarregava suas vontades reprimidas, aquilo já era demais para mim.

                Entretanto, depois dele, nunca mais conheci ninguém, eu sabia que não amaria mais ninguém como o amava, não me valia a pena arriscar aventuras que só me trariam mais sofrimento. Cheguei num ponto que meu pai quase acreditou que eu pudesse mudar de ideia, já que não levava rapazes para casa, mas o preconceito ao meu redor não deu a mesma trégua e o acesso irrestrito à internet me tornou alvo fácil. Eu não buscava namorado, mas me recusava a me esconder, a ter vergonha de ser quem sou. Não tem nada de errado com o meu jeito de amar, é amor tanto quanto qualquer outro, e meu coração estava tão partido quanto ficaria o coração de qualquer outra pessoa.

                Mas a vida é um ciclo, tudo tem volta, é só esperar o tempo certo para que isso aconteça. Não muito tempo atrás minha irmã abriu a porta e gritou meu nome. Fui à sala esperando qualquer coisa, menos o que estava por vir. Era ele com seus longos cabelos cor de fogo. Ignorando a presença da minha irmã, ele me beijou, ali mesmo, na sala, sem sequer se certificar de que não teria qualquer outra pessoa.

                - Acabo de assumir para minha família. Acabo de avisá-los que te amo e que farei o que for para você ser genro deles. – Disse ele, sorrindo, com as duas mãos ao redor do meu rosto.

                - Você disse que me ama? – Perguntei quase sem ar.

                - Sim, eu disse que te amo, Erich, porque eu te amo mesmo. E digo mais, eu sempre te amei, a vida toda, e agora estamos bem grandinhos, acho que com 27 anos tenho todo o direito de ser macho o suficiente para assumir que amo outro homem. – A cada poucas palavras, eu ganhava um novo beijo dele.

Naquela noite o apresentei como meu namorado à minha família. Meu pai foi o que ficou menos contente, minhas irmãs vibraram por me ver feliz pela primeira vez em anos, se não fosse a primeira vez na vida! Ele é filho único, o que dificultou um pouco mais as coisas e mais de uma vez tive que ouvir breves grosserias do meu sogro, me acusando sutilmente de ter desviado o filho dele do bom caminho.


                Mas quer saber? Eu nem imagino como vai ser o amanhã, só sei que hoje nós nos amamos o suficiente para termos certeza que nascemos um para o outro. A gente ainda não pode sair na rua como o casal apaixonado que somos, a sociedade é hipócrita demais para isso, mas estamos felizes, e não há nada mais importante que isso. Simples assim.


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