sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Navio

                De um lado, o navio fantasma o cerca sem medo, afinal, como combater um inimigo do qual somos incapazes de enxergar? E nós, de um navio real, completamente à deriva com motores apagados por falta de combustível, sabemos que estamos cercados.

                Nossos canais de comunicação foram sabotados por aquele paspalho que fugiu no único bote salva-vidas, e ainda nos mostrou a língua enquanto se afastava de nós em direção à costa. Confesso que desejei ardentemente que em seu caminho estivesse o navio fantasma e ele virasse a sobremesa dos tubarões, mas não, o miserável seguiu em segurança para comer maçãs fresquinhas em uma ilha qualquer.

                Então sabemos que estamos cercados, as bombas chegam de todo e qualquer lado sem que tenhamos qualquer chance de nos defender ou sequer se esquivar! E elas chegam abrindo imensos buracos em nosso casco. Nosso piso, como o chocolate, está aerado. Pulamos entre o que resta daqui e o que resta de lá. Alguns vão caindo ao fundo do casco onde as hélices os transformam em patê – com o perdão da imagem.

                Não vemos nada, não vemos de onde as imensas bolas de metal chegam, mas elas estão dispostas a nos transformar em pó.

                Quando nosso navio é virado em retalhos de madeira e metal, o oceano o engole.

                Coloco as mãos para cima – glub glub – sabendo em vão, se algum de nós ainda resta respirando não está assim melhor que eu. Glub blub – os dedos esticados.

                Glub.

                O breu.


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