terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Queima!

                Queima! Queima! Brada o povo diante da moça de longa túnica branca embebida em gasolina, ou qualquer dessas coisas fortes que a deixavam nauseada.

                Queima! Homens, mulheres e crianças num espetáculo de horror e fúria.

                Queima! Queima! Não há nada mais esperado que o fósforo riscado.

                Qual a acusação? Pergunta o forasteiro intrigado. O cidadão, com a tocha na mão, coça a cabeça. Sabe que eu nem sei?

                No tronco, as cordas deixam pouco espaço à respiração.

                Bruxa! Bruxa!

                As chamas logo crescem pra delírio e gozo da multidão. Mas tão dizendo por aí que não foi ela. Mas tem quem não faça ideia de como ela foi parar aí – fala intrigado alguém sem tochas.

                O público, em êxtase, vibra a cada grito de dor.

                Vem o silêncio quebrado apenas pelo trepidar das chamas. Menos uma! Menos uma o que? Ah, sei lá, alguma coisa deve ter feito.

                Não fez.

                O povo olha mais uma vez pra trás, nada resta além do cheiro de morte. Ah, era inocente? Paciência. Numa dessas a gente acerta.


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