segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

SOBREVIVÊNCIA – O Jantar


                Sabe aquele ditado “quando a esmola é demais, o santo desconfia”? Pois é, eu era trouxa demais pra desconfiar. Tá, “trouxa” estou sendo cruel comigo mesma, eu era uma pessoa iludida sobre o ser humano, que acreditava – e ainda acredita – que o ódio contra alguém que nunca te fez nada tem limites. Bom, não tem.

                Último ano do ensino médio. Minha “panelinha” era composta basicamente por quem olhava na minha cara. Nos dávamos bem sim, tínhamos nossos momentos, mas eu sabia que a qualquer momento aconteceria uma exclusão – um trabalho em grupo sem mim, um cinema combinado no cochicho, qualquer coisa. Eu já não me surpreendia mais.

                Quando você tem todo um histórico de segregação, de humilhação, de ter um alvo colado em sua testa ad eternum você sabe que a bomba pode explodir a qualquer minuto, mas isso não te deixa mais esperta nem menos esperançosa, tampouco de resguarda de cair em ciladas. E elas aconteciam o tempo todo.

                Na minha classe na sala de aula, eu ficava exatamente no limite entre a minha panelinha e a panelinha dos que mandavam na turma. Alguns dos meninos aprontões e uma menina que fugia completamente aos padrões da menina da turma dos populares. Ela era genuinamente bonita, mas não era sexualizada, gostosona e estúpida. Era uma menina muito bonita, comportada e muito inteligente, estudiosa e querida pelos professores.

                Ela havia sido minha amiga por anos. Ela e uma menina da minha panelinha. Éramos um quarteto com outra menina que se separou de nós com o fim do ensino fundamental. Eu fiquei sozinha na escola onde nos conhecemos até que o bullying e o resultado dele fizeram meus pais me trocarem de escola de novo, e eu escolhi a escola para onde tinham ido 2 das minhas 3 queridas amigas do fundamental.

                Camila – a popular – e Alana – da minha panelinha – eram amigas de infância, as famílias se conheciam bem e elas ainda mantinham um bom convívio do lado de fora da escola. Dentro, Camila havia se tornado boa demais pra nós. Mesmo assim, quando Camila me convidou para jantar em sua casa com os meninos da sua panelinha, e o convite não incluía mais ninguém da minha, eu vibrei.

                Eu já havia sido convidada para atividades com os populares antes e sempre terminou comigo traumatizada e deprimida, mas a gente parece que não aprende mesmo. Fiquei um pouco apreensiva com o convite, mas caramba, já éramos praticamente adultos, mesmo com a apreensão eu pensei que podia ser um convite genuíno, afinal, no fundamental eu frequentava a casa de Camila, éramos aquele quarteto que até nome tinha, com reuniões mensais regadas a guloseimas, boys band e fofocas dos garotos da turma.

                Na noite da tal janta, meus pais tinham um jantar baile e, por uma dessas fatalidades, minha irmã acabou tendo o funeral da avó do meu cunhado. De qualquer forma, ela tinha absoluto pânico de direção, a ideia é que eu voltaria pra casa de carona com o próprio pai de Camila, após o filme programado para depois da janta – ou seja, seja como fosse, eu estaria presa nessa janta até a hora da carona.

                Escolhi minha melhor roupa, peguei uma bolsinha emprestada com a minha irmã – dessas de festa mesmo, me maquiei e fui, de carona com meus pais, que me largariam lá e seguiriam para o baile. Minha irmã, super protetora e com um dom único de reconhecer ausência de caráter só olhando no olho das pessoas, protestou. Chegou a sugerir que seria bem mais divertido chamar uma pizza e alugar uns filmes pra minha noite sozinha em casa. Minha mãe, por sua vez, sabia o quanto era importante pra mim ser aceita, me sentir parte, então segurou forte minha mão e desejou uma linda noite quando eu saía do carro.

                É claro que eu não tinha como chegar naquele ambiente totalmente hostil agindo como se estivesse no paraíso. Como poderia eu ignorar que no dia anterior eu era o motivo de piada daquelas mesmas pessoas? Tentei ser o mais sociável possível, mas eu chegava a sentir dor muscular da tensão no meu corpo, eu estava dura, rígida, e genuinamente morrendo de medo.

                Nesses primeiros instantes a coisa não fugiu muito do que era “normal” – os meninos debochando de alguém da turma e falando em códigos com o propósito de me manter alheia à conversa da qual eu deveria estar participando. Entretanto, na hora que bateu a fome, descobri que a janta seria xis (cheeseburger). Eu tinha levado uns troquinhos por precaução, mas sabia que não tinha o bastante para comprar qualquer um do cardápio, precisava obrigatoriamente pegar o mais barato.

                Já nesse momento foi um inferno porque tentei avisar que não tinha dinheiro e precisaria do mais barato. Eles, todos bastante ricos, apenas riam da minha cara e me ignoravam. Também pedi que o meu fosse sem maionese porque o condimento, à época, me agredia o estômago. Desligaram o telefone sem eu fazer a menor ideia do que havia sido pedido pra mim.

                Mesmo com meus avisos de que eu não tinha dinheiro, a conta foi dividida igualmente. Entreguei tudo o que tinha na bolsa e sabia que o fato de não ter completado a minha parte na conta resultaria em muita humilhação futuramente. Àquela altura minha garganta já doía de vontade chorar por tudo o que já estava acontecendo em um lugar onde não havia qualquer refúgio. Eu não podia simplesmente pegar um papel e uma caneta e me encolher num cantinho escrevendo poesias, como fazia seguidamente no colégio.

                Quando os lanches chegaram, o circo de horrores tomou outra proporção. Os lanches foram distribuídos pela mesa, exceto o meu. Um dos rapazes – o mais cruel de todos – embrulhou meu lanche num saco plástico, o amassou e colocou por dentro da própria blusa. Estava eu, entre eles, na mesa, com o prato vazio enquanto todos comiam seus lanches e conversavam animadamente como se nada estivesse acontecendo.

                Era evidente que meu lanche não seria entregue. Pelo menos não tão cedo, e eu sabia que provavelmente nem conseguiria comer a papa que devia estar o sanduíche amassado por dentro da camiseta do menino. Me levantei da mesa e fui ao banheiro, sabendo que nem assim poderia chorar porque ficaria evidente na minha maquiagem.

                Na volta do banheiro, percebi que minha bolsa não estava exatamente onde a tinha deixado, mas eu estava tão tensa e assustada que nem considerei o fato. Sentei outra vez na mesa, diante do prato vazio e aguardei. Quando todos finalizaram seus lanches, o rapaz me entregou o meu. A sacola estava suada, lembro de sentir um nojo indescritível e cogitei simplesmente jogar fora. Mas ali eu estava desprovida de qualquer iniciativa própria, eu apenas agia conforme se esperava de mim.

                Abri o lanche todo amassado e dei a primeira mordida. Cuspi no prato tudo de volta ao ver minha boca invadida pelo gosto levemente azedo justamente daquele condimento que solicitei não ter no meu lanche. Ao redor do sanduíche explodia maionese – não apenas haviam solicitado porções extras de maionese no meu lanche como haviam colocado bisnagas inteiras enquanto eu estava no banheiro. Maionese me agredia o estômago, mas por sorte não passava disso, se eu fosse alérgica eles podiam ter me matado naquela noite.

                Obviamente, quando cuspi o sanduíche houve uma explosão de risadas. Depois da graça, todos foram se encaminhando para a sala de tv. Eu permaneci na mesa mais uns instantes antes de buscar minha bolsa num sofá próximo. Foi no instante em que me aproximava da sala de tv com a bolsa cruzada no ombro que ouvi os meninos denunciando ao pai de Camila que eu estava tentando roubar coisas da casa.

                Logo que cheguei eles “brincaram” de colocar pequenos enfeites na minha bolsa, mas eu estava presente; não conseguia impedi-los, mas retirava os objetos e recolocava-os em seus lugares, então me assustei, quando ouvi a denúncia sabia que algo seria encontrado na minha bolsa. Eu estava tão apavorada que não consegui abrir a bolsa a tempo da chegada do pai de Camila bem diante de mim pedindo que eu a abrisse.

                Eu tremia. Todos eles estavam parados na porta com sorrisos gigantes apenas esperando a revelação da “pegadinha” para cair na gargalhada. Abri a bolsa e dentro estava um cinzeiro de cristal. O pai de Camila retirou o objeto de dentro e o recolou no lugar sem dizer uma única palavra. Os meninos não riram na frente dele para não deixar claro que eles haviam feito aquilo. Desconfio que o pai dela não acreditou de fato que eu havia tentado roubar o objeto, mas nunca saberei.

                A questão é que ali a humilhação ultrapassou absolutamente todos os limites aceitáveis. Àquela altura segurar o choro me provocava dor física. Pedi para usar o telefone e liguei pra minha irmã. Ela venceu o medo e foi me buscar, e foi a última vez que ela dirigiu na vida.

                Já no carro explodi em um pranto absolutamente dolorido. Em casa, minha irmã ligou para a casa de Camila, falou inicialmente com ela mesma, cobrando como ela podia ter permitido que tudo isso acontecesse com uma amiga dela dentro da casa dela. Depois falou com o pai, igualmente revoltada que permitiram tanta humilhação a um ser humano entre suas paredes. No dia seguinte foi a vez de meu pai ligar para os pais de alguns dos presentes na janta.

                Não reagi a isso, não tinha mais energia para tal, mas eu sabia que as ligações me dariam problemas. Eu estava certa, além das bisnagas de maionese que surgiam na minha mochila diariamente (num dos dias estouraram com o calor, destruindo um dos meus cadernos por completo), as palavras do meu pai e da minha irmã viraram piada.

                Anos depois um dos rapazes me procurou e pediu desculpas. Não o grande responsável, nem Camila, mas o reconhecimento desse rapaz aliviou um pouco meu coração. Nem todos meus algozes são monstros. Alguns deles até amadureceram!

                Já deixo claro que misturei os anos. Lembro das bisnagas de maionese na minha mochila no ano anterior ao que cito aqui – talvez tenha sido outra situação, já que minha sensibilidade à maionese veio de infância e durou por muitos anos – mas independente do ano, eu infelizmente jamais serei capaz de esquecer desse jantar.

                Já não luto mais pra esquecer. Minha luta hoje é pra superar. Perdoar, talvez, já que essa mágoa que ficou só faz mal a mim. Triste, entretanto, é saber que ainda tenho muito o que contar...

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SOBREVIVÊNCIA não é uma série de ficção. Não apenas os fatos aqui relatados são totalmente reais, como, em diferentes formas, se repetem diariamente com milhares de pessoas.

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