Sabe
aquele ditado “quando a esmola é demais, o santo desconfia”? Pois é, eu era
trouxa demais pra desconfiar. Tá, “trouxa” estou sendo cruel comigo mesma, eu
era uma pessoa iludida sobre o ser humano, que acreditava – e ainda acredita –
que o ódio contra alguém que nunca te fez nada tem limites. Bom, não tem.
Último
ano do ensino médio. Minha “panelinha” era composta basicamente por quem olhava
na minha cara. Nos dávamos bem sim, tínhamos nossos momentos, mas eu sabia que
a qualquer momento aconteceria uma exclusão – um trabalho em grupo sem mim, um
cinema combinado no cochicho, qualquer coisa. Eu já não me surpreendia mais.
Quando
você tem todo um histórico de segregação, de humilhação, de ter um alvo colado
em sua testa ad eternum você sabe que
a bomba pode explodir a qualquer minuto, mas isso não te deixa mais esperta nem
menos esperançosa, tampouco de resguarda de cair em ciladas. E elas aconteciam
o tempo todo.
Na
minha classe na sala de aula, eu ficava exatamente no limite entre a minha
panelinha e a panelinha dos que mandavam na turma. Alguns dos meninos aprontões
e uma menina que fugia completamente aos padrões da menina da turma dos
populares. Ela era genuinamente bonita, mas não era sexualizada, gostosona e
estúpida. Era uma menina muito bonita, comportada e muito inteligente,
estudiosa e querida pelos professores.
Ela
havia sido minha amiga por anos. Ela e uma menina da minha panelinha. Éramos um
quarteto com outra menina que se separou de nós com o fim do ensino fundamental.
Eu fiquei sozinha na escola onde nos conhecemos até que o bullying e o
resultado dele fizeram meus pais me trocarem de escola de novo, e eu escolhi a
escola para onde tinham ido 2 das minhas 3 queridas amigas do fundamental.
Camila
– a popular – e Alana – da minha panelinha – eram amigas de infância, as
famílias se conheciam bem e elas ainda mantinham um bom convívio do lado de
fora da escola. Dentro, Camila havia se tornado boa demais pra nós. Mesmo
assim, quando Camila me convidou para jantar em sua casa com os meninos da sua
panelinha, e o convite não incluía mais ninguém da minha, eu vibrei.
Eu já
havia sido convidada para atividades com os populares antes e sempre terminou
comigo traumatizada e deprimida, mas a gente parece que não aprende mesmo.
Fiquei um pouco apreensiva com o convite, mas caramba, já éramos praticamente
adultos, mesmo com a apreensão eu pensei que podia ser um convite genuíno,
afinal, no fundamental eu frequentava a casa de Camila, éramos aquele quarteto
que até nome tinha, com reuniões mensais regadas a guloseimas, boys band e
fofocas dos garotos da turma.
Na
noite da tal janta, meus pais tinham um jantar baile e, por uma dessas
fatalidades, minha irmã acabou tendo o funeral da avó do meu cunhado. De
qualquer forma, ela tinha absoluto pânico de direção, a ideia é que eu voltaria
pra casa de carona com o próprio pai de Camila, após o filme programado para
depois da janta – ou seja, seja como fosse, eu estaria presa nessa janta até a
hora da carona.
Escolhi
minha melhor roupa, peguei uma bolsinha emprestada com a minha irmã – dessas de
festa mesmo, me maquiei e fui, de carona com meus pais, que me largariam lá e
seguiriam para o baile. Minha irmã, super protetora e com um dom único de
reconhecer ausência de caráter só olhando no olho das pessoas, protestou.
Chegou a sugerir que seria bem mais divertido chamar uma pizza e alugar uns
filmes pra minha noite sozinha em casa. Minha mãe, por sua vez, sabia o quanto
era importante pra mim ser aceita, me sentir parte, então segurou forte minha
mão e desejou uma linda noite quando eu saía do carro.
É claro
que eu não tinha como chegar naquele ambiente totalmente hostil agindo como se
estivesse no paraíso. Como poderia eu ignorar que no dia anterior eu era o
motivo de piada daquelas mesmas pessoas? Tentei ser o mais sociável possível,
mas eu chegava a sentir dor muscular da tensão no meu corpo, eu estava dura,
rígida, e genuinamente morrendo de medo.
Nesses
primeiros instantes a coisa não fugiu muito do que era “normal” – os meninos
debochando de alguém da turma e falando em códigos com o propósito de me manter
alheia à conversa da qual eu deveria estar participando. Entretanto, na hora
que bateu a fome, descobri que a janta seria xis (cheeseburger). Eu tinha
levado uns troquinhos por precaução, mas sabia que não tinha o bastante para
comprar qualquer um do cardápio, precisava obrigatoriamente pegar o mais
barato.
Já
nesse momento foi um inferno porque tentei avisar que não tinha dinheiro e
precisaria do mais barato. Eles, todos bastante ricos, apenas riam da minha
cara e me ignoravam. Também pedi que o meu fosse sem maionese porque o
condimento, à época, me agredia o estômago. Desligaram o telefone sem eu fazer
a menor ideia do que havia sido pedido pra mim.
Mesmo
com meus avisos de que eu não tinha dinheiro, a conta foi dividida igualmente.
Entreguei tudo o que tinha na bolsa e sabia que o fato de não ter completado a
minha parte na conta resultaria em muita humilhação futuramente. Àquela altura
minha garganta já doía de vontade chorar por tudo o que já estava acontecendo
em um lugar onde não havia qualquer refúgio. Eu não podia simplesmente pegar um
papel e uma caneta e me encolher num cantinho escrevendo poesias, como fazia
seguidamente no colégio.
Quando os
lanches chegaram, o circo de horrores tomou outra proporção. Os lanches foram
distribuídos pela mesa, exceto o meu. Um dos rapazes – o mais cruel de todos –
embrulhou meu lanche num saco plástico, o amassou e colocou por dentro da
própria blusa. Estava eu, entre eles, na mesa, com o prato vazio enquanto todos
comiam seus lanches e conversavam animadamente como se nada estivesse
acontecendo.
Era
evidente que meu lanche não seria entregue. Pelo menos não tão cedo, e eu sabia
que provavelmente nem conseguiria comer a papa que devia estar o sanduíche
amassado por dentro da camiseta do menino. Me levantei da mesa e fui ao
banheiro, sabendo que nem assim poderia chorar porque ficaria evidente na minha
maquiagem.
Na
volta do banheiro, percebi que minha bolsa não estava exatamente onde a tinha
deixado, mas eu estava tão tensa e assustada que nem considerei o fato. Sentei
outra vez na mesa, diante do prato vazio e aguardei. Quando todos finalizaram
seus lanches, o rapaz me entregou o meu. A sacola estava suada, lembro de
sentir um nojo indescritível e cogitei simplesmente jogar fora. Mas ali eu
estava desprovida de qualquer iniciativa própria, eu apenas agia conforme se
esperava de mim.
Abri o
lanche todo amassado e dei a primeira mordida. Cuspi no prato tudo de volta ao
ver minha boca invadida pelo gosto levemente azedo justamente daquele
condimento que solicitei não ter no meu lanche. Ao redor do sanduíche explodia
maionese – não apenas haviam solicitado porções extras de maionese no meu
lanche como haviam colocado bisnagas inteiras enquanto eu estava no banheiro.
Maionese me agredia o estômago, mas por sorte não passava disso, se eu fosse
alérgica eles podiam ter me matado naquela noite.
Obviamente,
quando cuspi o sanduíche houve uma explosão de risadas. Depois da graça, todos
foram se encaminhando para a sala de tv. Eu permaneci na mesa mais uns
instantes antes de buscar minha bolsa num sofá próximo. Foi no instante em que
me aproximava da sala de tv com a bolsa cruzada no ombro que ouvi os meninos
denunciando ao pai de Camila que eu estava tentando roubar coisas da casa.
Logo
que cheguei eles “brincaram” de colocar pequenos enfeites na minha bolsa, mas
eu estava presente; não conseguia impedi-los, mas retirava os objetos e
recolocava-os em seus lugares, então me assustei, quando ouvi a denúncia sabia
que algo seria encontrado na minha bolsa. Eu estava tão apavorada que não
consegui abrir a bolsa a tempo da chegada do pai de Camila bem diante de mim
pedindo que eu a abrisse.
Eu
tremia. Todos eles estavam parados na porta com sorrisos gigantes apenas
esperando a revelação da “pegadinha” para cair na gargalhada. Abri a bolsa e
dentro estava um cinzeiro de cristal. O pai de Camila retirou o objeto de dentro
e o recolou no lugar sem dizer uma única palavra. Os meninos não riram na
frente dele para não deixar claro que eles haviam feito aquilo. Desconfio que o
pai dela não acreditou de fato que eu havia tentado roubar o objeto, mas nunca
saberei.
A
questão é que ali a humilhação ultrapassou absolutamente todos os limites
aceitáveis. Àquela altura segurar o choro me provocava dor física. Pedi para
usar o telefone e liguei pra minha irmã. Ela venceu o medo e foi me buscar, e
foi a última vez que ela dirigiu na vida.
Já no
carro explodi em um pranto absolutamente dolorido. Em casa, minha irmã ligou
para a casa de Camila, falou inicialmente com ela mesma, cobrando como ela
podia ter permitido que tudo isso acontecesse com uma amiga dela dentro da casa
dela. Depois falou com o pai, igualmente revoltada que permitiram tanta
humilhação a um ser humano entre suas paredes. No dia seguinte foi a vez de meu
pai ligar para os pais de alguns dos presentes na janta.
Não
reagi a isso, não tinha mais energia para tal, mas eu sabia que as ligações me
dariam problemas. Eu estava certa, além das bisnagas de maionese que surgiam na
minha mochila diariamente (num dos dias estouraram com o calor, destruindo um
dos meus cadernos por completo), as palavras do meu pai e da minha irmã viraram
piada.
Anos
depois um dos rapazes me procurou e pediu desculpas. Não o grande responsável,
nem Camila, mas o reconhecimento desse rapaz aliviou um pouco meu coração. Nem
todos meus algozes são monstros. Alguns deles até amadureceram!
Já
deixo claro que misturei os anos. Lembro das bisnagas de maionese na minha
mochila no ano anterior ao que cito aqui – talvez tenha sido outra situação, já
que minha sensibilidade à maionese veio de infância e durou por muitos anos –
mas independente do ano, eu infelizmente jamais serei capaz de esquecer desse
jantar.
Já não
luto mais pra esquecer. Minha luta hoje é pra superar. Perdoar, talvez, já que
essa mágoa que ficou só faz mal a mim. Triste, entretanto, é saber que ainda
tenho muito o que contar...
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SOBREVIVÊNCIA não é uma série de ficção. Não apenas os fatos
aqui relatados são totalmente reais, como, em diferentes formas, se repetem
diariamente com milhares de pessoas.

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