Eu poderia imaginar mil situações onde seriam possíveis
nossas maneiras de ver o mundo. Universos paralelos em choques multiatômicos
onde a frieza de nossas células fariam algum sentido. Somos todos resultados de
catástrofes naturais, da força do acaso, do encontro inesperado entre a água e
a matéria sólida.
Como
argila. O barro granulado afundado em líquido sujo. Matéria orgânica planejada
para a decomposição. Nem o mais firme de nossos ossos resiste à ação implacável
do tempo e das misérias desse tempo de angústias e prazos estourados que
costumamos rotular de vida.
Nossas
maneiras de ver o mundo se chocam com a realidade da carne que está fadada ao
apodrecimento. Mas ainda assim não trocaríamos nossa finitude por uma
imortalidade inútil. É a certeza da morte que nos tira a bunda da cadeira –
nunca se sabe se hoje não é a última chance.
Imortalidade
acomoda, acomodação nos dá urticária.
Não
somos revolucionários. A revolução é muito bonita nos livros de história. No
dia a dia é o jovem idealista apanhando da máquina fascista. Se eu quisesse ver
sangue todo dia, trabalhava em hospital ou renovava meu estoque de lâminas. A
revolução é bonita até que o osso quebrado pelo cassetete seja o seu.
Não
será o meu. Deixemos a revolução para quem tolera a dor.
Talvez
tenhamos embarcado em um disco voador e estejamos num plano B da Terra, onde a
humanidade pode ser tudo, menos humana. A cegueira da alma é a pior
deficiência, porque de nada adianta você ver se você se recusa a enxergar.
Sigamos
empurrando nossos ideias com a barriga, nada mais pleno do que a
procrastinação.
E não
espero que faça sentido, afinal, a vida não o faz, por que nossos amontoados de
células em constante processo de auto-aniquilação fariam?
Devoramos
a nós mesmos para sobreviver. Para que no fim da estrada nos encontre a morte
igual. Então que pelo menos esse encontro não nos venha com a incômoda sensação
de que não fizemos a nossa parte.
Arte de Nahu Ramos

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