terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Sem sentido

                Eu poderia imaginar mil situações onde seriam possíveis nossas maneiras de ver o mundo. Universos paralelos em choques multiatômicos onde a frieza de nossas células fariam algum sentido. Somos todos resultados de catástrofes naturais, da força do acaso, do encontro inesperado entre a água e a matéria sólida.

                Como argila. O barro granulado afundado em líquido sujo. Matéria orgânica planejada para a decomposição. Nem o mais firme de nossos ossos resiste à ação implacável do tempo e das misérias desse tempo de angústias e prazos estourados que costumamos rotular de vida.

                Nossas maneiras de ver o mundo se chocam com a realidade da carne que está fadada ao apodrecimento. Mas ainda assim não trocaríamos nossa finitude por uma imortalidade inútil. É a certeza da morte que nos tira a bunda da cadeira – nunca se sabe se hoje não é a última chance.

                Imortalidade acomoda, acomodação nos dá urticária.  

                Não somos revolucionários. A revolução é muito bonita nos livros de história. No dia a dia é o jovem idealista apanhando da máquina fascista. Se eu quisesse ver sangue todo dia, trabalhava em hospital ou renovava meu estoque de lâminas. A revolução é bonita até que o osso quebrado pelo cassetete seja o seu.

                Não será o meu. Deixemos a revolução para quem tolera a dor.

                Talvez tenhamos embarcado em um disco voador e estejamos num plano B da Terra, onde a humanidade pode ser tudo, menos humana. A cegueira da alma é a pior deficiência, porque de nada adianta você ver se você se recusa a enxergar.

                Sigamos empurrando nossos ideias com a barriga, nada mais pleno do que a procrastinação.

                E não espero que faça sentido, afinal, a vida não o faz, por que nossos amontoados de células em constante processo de auto-aniquilação fariam?

                Devoramos a nós mesmos para sobreviver. Para que no fim da estrada nos encontre a morte igual. Então que pelo menos esse encontro não nos venha com a incômoda sensação de que não fizemos a nossa parte. 

Arte de Nahu Ramos

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