segunda-feira, 9 de novembro de 2015

“O sol irá brilhar, outra vez aqui”

                Durante alguns anos da minha vida, eu fiz parte. Na verdade esse sentimento de “fazer parte” é, seguidamente, uma grande ilusão que criamos justamente para não nos sentirmos socialmente isolados. Mas como já disse, uma ilusão. Ser parte de um grupo social tende a ser provisório. Não, isso não é um tratado sociológico nem antropológico sobre pertencimento social, esse é apenas um texto onde vou contar uma história.

                Eu tive uma juventude tardia; quando era tempo de ser apenas uma adolescente, eu dedicava meus dias às causas sociais isolada dos demais jovens que me achavam ou muito chata, ou completamente louca. Com a maturidade fui aprendendo a dosar meu ativismo social com a minha própria vida, e foi nessa época, já perto dos meus 30 anos, que enfim fui jovem.

                Independente, morando sozinha, carreira em ascensão e um bom salário foram as fórmulas para passar 4 anos da minha vida acompanhando minha banda favorita por todos os cantos do Estado. Conheci mais cidades nesse período do que em todo o resto da minha vida. Vivi coisas que muita gente idosa jamais viveu. Descobri que NENHUM tênis no planeta continua confortável depois de 6 horas de pé.

                Descobri que nem tudo é o que parece. Para o bem e para o mal.

                Ao mesmo tempo que máscaras caíram em um dos piores momentos da minha vida, guardei pra mim um medo profundo que tudo tivesse sido em vão. Saí sangrando, ferida e insegura. Passei dois anos da minha vida amargando a privação de um adeus.

                Foi em 2013 que estive com eles pela última vez, e eu não sabia que era última vez. Não ter tido a chance de um último abraço e um “muito obrigada” me corroía como ácido. Fui reconstruindo minha vida  mas eu sabia que não conseguiria simplesmente seguir em frente sem pelo menos um último abraço.

                Depois de 2 anos eles estiveram aqui, na cidade em que fui obrigada a voltar, pra vida que não se parece com aquela que lutei pra construir, pra história que estou reescrevendo depois de juntar meus cacos. E eu fui vê-los com aquele medo terrível do que eu poderia encontrar. Eu não sabia o que esperar. Eu não sabia o tipo de reação que teria porque desde aquele meu último encontro, tudo o que eu sabia da parte dessa história que vivemos juntos foi pelos outros, por fofocas, por informações incompletas, por deduções e paranoias minhas.

                Um ano atrás teve um show, não tive coragem de ir, não estava pronta para voltar à frente do palco não pertencendo mais, não tendo mais aquela vida, eu não era mais a Maya que coordenava a entrada do grupo no camarim. Eu não era mais a Maya que apresentava mil ideias, que criava materiais do grupo, que escrevia textos em que todos choravam ao ler, que atravessava a cidade onde morava sozinha, pegava o metrô e encontrava com um grupo que a respeitava. Eu não era mais ninguém perto do que fora um dia.

                Àquela altura, do primeiro show na minha cidade desde que voltei em mosaico, eu era um resto. Uma pessoa acuada, isolada, empobrecida e fragilizada. Tudo havia se perdido, inclusive meus sonhos.

                Não ia nesse show de agora. Não sabia se podia suportar porque dentro de minha neurose (por sinal, esse é o nome da música que mais amo no mundo), eu já não representava mais nada pra banda, pra mais ninguém dessa época. Ouvir as músicas me doiam por dentro, como se abrissem feridas, e eu, que já havia reunido e colado de volta boa parte dos meus pedaços, ainda não havia me recuperado financeiramente para arriscar a investir o que não tinha em um evento que poderia me machucar ainda mais.

                Mas eu precisava do adeus que não pude dar.

                Então fui na sessão de autógrafos realizada à tarde.

                Pense em 2 anos de tempo nublado, chuvas e noites sem fim. Pense que nesse cenário renasceu o sol. Em um abraço apertado, um sorriso sincero e um “a gente vai dar um jeito” para que eu pudesse vê-los no palco outra vez que eu descobri que não haviam duas Mayas – a que fazia parte e a que não era ninguém – só havia uma e era justamente a Maya que conquistou o carinho e o respeito de seus ídolos.

                Talvez o Jonathan, líder da banda, jamais leia esse texto e jamais saiba que a reação dele a mim naquele momento me tirou de um período longo de um sofrimento que me alfinetava o coração desde 2013. Talvez ele jamais saiba que, durante o show, eu chorei, mas não de tristeza como vinha sendo, de emoção porque meus planos de despedida foram trocados por um “ainda nos veremos muito”.

                E isso não foi uma impressão. O pós show, momento em que eu ficava junto ao produtor na porta coordenando a entrada dos fãs e, por vezes, nem aproveitando, me mostrou que a única coisa que mudou é que agora eu era capaz de fazer isso tudo sozinha, sem quem pudesse me apunhalar pelas costas, como sempre acontece em grupos grandes e heterogêneos. Não todos, obviamente, teve muita gente especial que ficou pra trás – baixas de guerra? – mas ali estava eu de coração aberto, sendo não mais a Maya poderosa, com contatos e alguma influência, mas a fã genuinamente envolvida no trabalho da banda, a amiga que efetivamente faz parte da história da banda, o ser humano com todas as suas vulnerabilidades. E ali reencontrei meus AMIGOS.

                Era bom estar num ambiente onde as máscaras caídas não haviam sido minhas companheiras de viagem.

                Não me arrependo de nada dos 4 anos que compartilhei meu amor pela Reação em Cadeia com tanta gente diferente. Não me arrependo não apenas porque foi um dos melhores períodos da minha vida, mas porque ali deixei gente muito boa. Me vi perdida em cinzas quando tudo acabou, mas eu sei que a cada pessoa que me magoou, tem 10 que nutrem um carinho real por mim.

                E tem a própria banda. “Você sempre terá a Reação em Cadeia”. Eu sei, Jonathan. Agora eu sei. Agora eu finalmente sei que eu não me iludi quando acreditei que fazia parte. Eu realmente fazia. Eu faço.

                Jonathan, Dani, Elias, Tiago, obrigada por fazerem o sol brilhar outra vez aqui. Essa frase nunca fez tanto sentido quanto agora.

                Hoje é o primeiro dia do resto dos nossos dias e eu não preciso mais esperar por vocês, porque vocês estão aqui. Sempre estiveram, só estive impossibilitada de ver por um longo período.

                Aos amigos que fizeram parte desses 4 anos comigo, deixo aqui uma novidade que já compartilhei com os guris e recebi todo o apoio do Jonathan: Galera da Van vai virar livro. Como criadora do termo, vou usa-lo livremente mesmo que não pertença mais ao grupo. Antes que comece o ataque de pânico, não vou expor ninguém, meu objetivo não é esse.

                E agora, enfim, eu posso respirar em paz.


Título e algumas frases do texto retirados da música "Neurose".

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