Munia-se de letras. Eram muitas,
aguerridas, corajosas como só os grandes heróis conseguem ser. Ela, uma
garotinha franzina e medrosa, sentia-se invencível quando munida de letras.
Entre parágrafos e paráfrases,
compunha melodia. Entre sílabas tônicas e pontos finais criava mundos novos
onde antes havia o nada. Do vazio, histórias. Tinha predileção por histórias
apocalípticas. Era dramática como uma onomatopeia dolorida.
Tsunamis de ideias, temporais de
símbolos gráficos que a avisavam que os caracteres podiam estar em perigo.
Tentou no teclado, sentiu-se nua. Foi à mão, armada de uma caneta e papel,
resgatar letra a letra de um abismo de não-inspiração para o encantamento de
mais uma história nascida com gotinhas de tinta azul.
Era metáfora. Toda ela. Hipérboles
pediam passagens e o casamento do “ão” estava prestes a começar. Mundão! Ô
mundão! Se houver guerra de letras, o casal não há de conceder perdão.
Passos à frente, um novo perigo. Uma
página corria fugida ainda sem nenhuma linha de letras escritas ostentar! Pega
fujona! Página, em branco, não pode ficar! Corriam palavras pré-pronta em
desespero, se a página foge pra onde elas vão?
A nossa escritora não se deu por
vencida. A força das letras não se entregaria à página entregue ao sabor do
vento. Sem ela, o que faria? Qualquer superfície havia de servir, e com sua
espada de ponta azul, registrou em seus próprios braços as palavras que antes
temiam a morte e agora encontravam na epiderme o seu lar.
Escritores sempre encontram um meio
de libertar as palavras e dar-lhes um cantinho para descansar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário