quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A fuga da folha

            Munia-se de letras. Eram muitas, aguerridas, corajosas como só os grandes heróis conseguem ser. Ela, uma garotinha franzina e medrosa, sentia-se invencível quando munida de letras.

            Entre parágrafos e paráfrases, compunha melodia. Entre sílabas tônicas e pontos finais criava mundos novos onde antes havia o nada. Do vazio, histórias. Tinha predileção por histórias apocalípticas. Era dramática como uma onomatopeia dolorida.

             Tsunamis de ideias, temporais de símbolos gráficos que a avisavam que os caracteres podiam estar em perigo. Tentou no teclado, sentiu-se nua. Foi à mão, armada de uma caneta e papel, resgatar letra a letra de um abismo de não-inspiração para o encantamento de mais uma história nascida com gotinhas de tinta azul.

            Era metáfora. Toda ela. Hipérboles pediam passagens e o casamento do “ão” estava prestes a começar. Mundão! Ô mundão! Se houver guerra de letras, o casal não há de conceder perdão.

            Passos à frente, um novo perigo. Uma página corria fugida ainda sem nenhuma linha de letras escritas ostentar! Pega fujona! Página, em branco, não pode ficar! Corriam palavras pré-pronta em desespero, se a página foge pra onde elas vão?

            A nossa escritora não se deu por vencida. A força das letras não se entregaria à página entregue ao sabor do vento. Sem ela, o que faria? Qualquer superfície havia de servir, e com sua espada de ponta azul, registrou em seus próprios braços as palavras que antes temiam a morte e agora encontravam na epiderme o seu lar.

            Escritores sempre encontram um meio de libertar as palavras e dar-lhes um cantinho para descansar. 


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