segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Livres

                Ainda estou aprendendo a amar.

                Olho teus olhos no espelho e tudo o que consigo pensar é se algum dia serei capaz de te deixar escolher entre você e nós.

                Abri mão de tantos sonhos e vontades em que você jamais se encaixaria por crer que tudo o que poderíamos construir valeria a pena, sem perceber que eu te aprisionava como um pássaro de asas cortadas. Jamais quis te ferir, e foi justamente assim que arranquei um pedaço de ti.

                Ainda estou aprendendo a amar sem amarrar. Não é algo simples, mas quando avisto teus olhos tristonhos no espelho da penteadeira, sei que estou errando contigo. Sei que construí uma gaiola ao seu redor e eu mesma perdi a chave.

                Quisera eu ser assim tão capaz de te libertar de mim mesma sem te perder, porque não sou tua algoz, sou quem daria a vida por ti. Vejo que me tens muito mais como uma carrasca do que como um amor. Isso me fere tanto quanto a ti.

                Ainda estou aprendendo a amar, tentando agir de forma a te deixar livre sem precisar te ver partir.

                Abro a porta do quarto. Sinto a brisa leve invadir a alcova. Você se cobre. Eu sorrio. Não parece disposto a partir. Até que as asas voltam a crescer. Te vejo passar pela porta sem me mover. Me propus a te libertar e vou até o fim.

                A porta se fecha com você do lado de fora. Sei que te perdi.

                Ainda estou aprendendo a amar. Um aceno silencioso que você nunca viu e eu me recolho ao meu pesar.

                Antes mesmo que eu pudesse perceber, eu sabia que também estava livre.

                E nos reencontramos. E voamos juntos.


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