Alguns meses
antes dessa foto ser batida, eu pedi ajuda à minha mãe. Eu tinha muitas
histórias pra contar e nenhuma condição técnica para tal (leia-se, não sabia
nem ler, nem escrever).
Até
esse momento – meses antes dessa foto – minhas histórias eram contadas com
bonecas e grunhidos. Não sei explicar como começou, mas em algum momento eu
senti que não era o bastante. Deixei um pouco das bonecas de lado e me agarrei
em papel e lápis.
Lembro-me
que minha mãe comprava pacotes de papel jornal – uma folha fina e num tom de
bege feíssimo – porque folha de desenho era mais cara e eu usava um volume muito
alto de papel, e lá produzia histórias e mais histórias. Em quadrinhos, porque
eu só conseguia desenhar.
Quando
essa foto foi tirada, eu já havia produzido dezenas de histórias. Eu desenhava
razoavelmente bem, e ditava os diálogos para minha mãe. Embora chamasse a
atenção o fato de uma criança de 3 anos construir uma história com coerência e
coesão, com um certo grau de complexidade, até ali a aposta da família era
mesmo nas artes plásticas.
O
motivo era simples: minha madrinha é artista e eu adorava ficar com ela
aprendendo sobre aquarela, e os meus desenhos não eram meros rabiscos de uma
criança de 3 anos.
Até a
minha alfabetização meu interesse era total nas artes plásticas; meu brinquedo
favorito era uma mistura para fazer gesso e umas forminhas de onde tirava
pequenas esculturas (que sempre ficavam danificadas por bolhas de ar), depois
cuidadosamente pintava uma a uma.
Mas
quando acabavam as pinturas, esculturas e desenhos, era da minha mãe a missão
de ouvir atentamente minhas histórias para transcrevê-las nos desenhos. E
quando eu estava sozinha, montava cidades inteiras de bonecos em miniaturas na
mesa da sala e criava famílias com suas histórias. Minhas cidades tinham
políticos corruptos, homens violentos, mulheres empoderadas, escolas e prisões.
Quando
eu cheguei na primeira série, eu me encontrei. Descobri exatamente onde
residiam meus sonhos: na escrita. Foi aos 7 anos, 4 anos depois dessa foto, que
escrevi meu primeiro romance e disse aos meus pais que queria ser escritora.
Mal sabia eu que eu já era.
Hoje,
dia das crianças, acho fascinante pensar que minha brincadeira favorita não se
perdeu com a vida adulta, e nem meu sonho infantil. Sigo brincando com as
palavras, sigo na trilha do meu sonho literário.
Sigo
criança.

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