segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sigo criança


                Alguns meses antes dessa foto ser batida, eu pedi ajuda à minha mãe. Eu tinha muitas histórias pra contar e nenhuma condição técnica para tal (leia-se, não sabia nem ler, nem escrever).

                Até esse momento – meses antes dessa foto – minhas histórias eram contadas com bonecas e grunhidos. Não sei explicar como começou, mas em algum momento eu senti que não era o bastante. Deixei um pouco das bonecas de lado e me agarrei em papel e lápis.

                Lembro-me que minha mãe comprava pacotes de papel jornal – uma folha fina e num tom de bege feíssimo – porque folha de desenho era mais cara e eu usava um volume muito alto de papel, e lá produzia histórias e mais histórias. Em quadrinhos, porque eu só conseguia desenhar.

                Quando essa foto foi tirada, eu já havia produzido dezenas de histórias. Eu desenhava razoavelmente bem, e ditava os diálogos para minha mãe. Embora chamasse a atenção o fato de uma criança de 3 anos construir uma história com coerência e coesão, com um certo grau de complexidade, até ali a aposta da família era mesmo nas artes plásticas.

                O motivo era simples: minha madrinha é artista e eu adorava ficar com ela aprendendo sobre aquarela, e os meus desenhos não eram meros rabiscos de uma criança de 3 anos.

                Até a minha alfabetização meu interesse era total nas artes plásticas; meu brinquedo favorito era uma mistura para fazer gesso e umas forminhas de onde tirava pequenas esculturas (que sempre ficavam danificadas por bolhas de ar), depois cuidadosamente pintava uma a uma.

                Mas quando acabavam as pinturas, esculturas e desenhos, era da minha mãe a missão de ouvir atentamente minhas histórias para transcrevê-las nos desenhos. E quando eu estava sozinha, montava cidades inteiras de bonecos em miniaturas na mesa da sala e criava famílias com suas histórias. Minhas cidades tinham políticos corruptos, homens violentos, mulheres empoderadas, escolas e prisões.

                Quando eu cheguei na primeira série, eu me encontrei. Descobri exatamente onde residiam meus sonhos: na escrita. Foi aos 7 anos, 4 anos depois dessa foto, que escrevi meu primeiro romance e disse aos meus pais que queria ser escritora. Mal sabia eu que eu já era.

                Hoje, dia das crianças, acho fascinante pensar que minha brincadeira favorita não se perdeu com a vida adulta, e nem meu sonho infantil. Sigo brincando com as palavras, sigo na trilha do meu sonho literário.

                Sigo criança.

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