segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Minha garganta dói

                Dessa vez não foi o choro que fez minha garganta doer, embora me veja com alguns bons motivos pra chorar. Dessa vez foi a luta.

                Resumo da ópera é que sou viciada na feira do livro, o que provavelmente não surpreende ninguém, certo? Há 31 anos frequento a feira do livro da minha cidade em sua praça central (por sinal, essa foi a 31ª edição). Ao longo desses anos a estrutura foi gradativamente melhorando, e melhorando, e melhorando e tava indo muuuuito bem até a prefeitura resolver que tem que levar a feira pra longe do povo.

                Sim, do povo, P-O-V-O, isso inclui aquelas pessoas que muita gente não quer ver. Pois eu adoro. Povão mesmo, de andar no mesmo corredor o empresário e o gari, de cavocar nos promocionais a advogada e a diarista, de trocar dicas de livro a professora e o recém-alfabetizado pelo EJA. Povo. Todo mundo.

                É óbvio que a mistureba incomoda, por sinal os poucos até agora que vi concordarem com a mudança – de ter de fato opinião formada e não de achar que pode dar certo apenas – é gente que ostenta nas redes, tem foto de perfil na frente da Torre Eiffel, anda de carro importado e não mete o narizinho em corredor cheio de pobre.

                Por sinal, é gente que compra pela internet, que nem sabe o que é feira do livro. Tá, eu sei, to generalizando, talvez tenha gente que seja a favor e que passeie por lá e não tenha toda essa aversão à pobre. Mas no mínimo tá cagando pra eles.

                Sim, claro, se você luta pra tirar a feira do lugar que fica exatamente entre as duas centrais de ônibus com linhas pra cidade inteira e colocar num lugar com ZERO circulação de gente (sim, não to exagerando, no dia a dia não circula absolutamente ninguém lá, indo de um ponto a outro), inacessível para a maior parte da cidade e cujos bares cobram por uma Coca-Cola mais ou menos 10% da minha renda, é porque você REALMENTE não quer ver pobre comprando livro.

                Bom, os livreiros querem. Eu quero. Eu quero continuar vendo cenas como da senhorinha muito humilde, de roupas velhas, gastas e manchadas, encantada escolhendo livros num balaio a R$ 3,00. Acreditem, eu me emociono com isso, e eu conheço muito bem a região onde querem colocar na IMPOSIÇÃO a nossa feira, e posso garantir pra vocês que essa senhorinha não vai na feira por lá. Primeiro porque ela não se sentirá à vontade em uma região frequentada pela elite, segundo que ela vai precisar de 2 ônibus a R$ 3,50.

                Conheço pouquíssima gente que defende esse disparate, mas vez ou outra algum deles deixa escapar que na praça tem “gente inadequada” (usando as palavras exatas de uma delas). Por gente inadequada, considerem puta, preto imigrante, travesti, pobre. Gente inadequada.

                Puta, preto imigrante, travesti e pobre é tão cidadão quanto eu, você, ou o carinho da Pajero que posou pra foto na abertura e não deu mais as caras. Deixe que venham! Deixe que leiam!

                Ah, sim, pobre lendo é um problema. Vai que ganha senso crítico e começa a ver que não precisa ser capacho pro resto da vida? Que venham os livros ao povo! Foi-se o tempo que se acreditava que livro é pra alguns. NÃO É. Eu sou escritora e me ofende que meu público seja definido pela quantidade de dinheiro na sua conta. NÃO É.

                Eu escrevo pra gente. E é só pra gente porque bicho AINDA não é capaz. Se a gente que tá lendo meu livro é herdeira de 30% das riquezas do mundo ou sustenta a família com um salário mínimo, se a gente que tá lendo meu livro é preta, branca, amarela, albina ou multicolorida, se é hétero, homo, pan ou assexual, se sua identificação é masculina, feminina, ambos, nenhuma ou abóbora, eu realmente não me importo. Você é gente? Então eu escrevo pra você.

                Segregação não combina mais com o século XXI. Como bem disse a musa Elisa Lucinda, no encerramento da feira: os livros devem ir onde o povo está. O POVO. P-O-V-O.

                Feira do livro é sobre gentes e livros. É sobre todos nós. É sobre histórias. Não importa se é puta ou médica, se é juiz ou gari. É gente. Ninguém é mais gente que ninguém.

                Então hoje eu lutei. Gritei mesmo, plenos pulmões, por isso to com a garganta como se tivesse engolido o Saara. A palma da minha mão direita tá roxa – nunca tinha visto mão ficar roxa por bater palma, mas a minha ficou. Gritei e gritaria de novo. Até discurso no microfone eu fiz.

                Ninguém é obrigado a ficar calado. Hoje foi sobre os livros, mas foi também sobre democracia. Foi também sobre não baixar a cabeça. Foi sobre exercer a cidadania.

                Foi sobre mostrar que a gente existe e que a gente importa.

                Não mexam com o povo dos livros. Os livros são excelentes professores de cidadania. 


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