sábado, 22 de outubro de 2016

MEMÓRIAS DO VASO DA SALA

Nasci cerâmica. Não qualquer cerâmica. Coisa fina, com motivos orientais, branco perolado com detalhes em ouro falso. Sim, falso, né, quem tem dinheiro pra colocar na sala um vaso breguíssimo de ouro de verdade?
Mas enfim. Meu lugar era ali no anexo da entrada, junto ao... ao... àquele móvel com um espelho que tem um nome fresco e que o dono da casa usa pra ajeitar aquela gravata borboleta ridícula.
Ficava ali parado, com um monte de folha seca e flor de borracha dentro. Acho ótimo, pela atenção que me davam em um mês eu deixava de ser vaso pra ser túmulo.
Bom mesmo era quando vinha visita. Uma ou outra me achava gatão, comentava a delicadeza de meus traços e o talento de quem pintou os desenhos, sem saber que era uma estampa pré-pronta registrada com spray lá da 25. Família rica sim. No facebook, porque na vida real o IPTU tava atrasado que eu sei.
O fato é que o imbecil do filho desse pobre metido à elite com a gravata borboleta resolveu jogar futebol dentro daquele apartamento pouco maior que um ovo e é óbvio que quem tomou no cu fui eu.
Lá foi ele com a cola bastão que ele usa pra fazer mural de mulher pelada na pocilga que ele chama de quarto e foi juntando os pedaços. Por óbvio aquela anta bípede não entende os minimalismos dos detalhes da minha estampa e me transformou numa obra póstuma do Picasso, só que sem o talento do artista.
Tava lá eu, virado numa releitura de Frank, o Stein, e minha flores de borracha.
Aproveitei que o único talento do pirralho é encher o saco e me impulsionei por entre as falhas da colagem.
Virei picadinho.
Jogado no lixo, como todo bom vaso vagabundo, fui diluindo com a chuva e virando água suja pelas ruas da cidade. Pelo menos a pintura de ouro simulado saiu de mim pra sempre. Água suja sim, brega jamais.
Hoje, quebrado, diluído, enlameado, me sinto alma livre. Não sou vaso, não sou nada. Sou corrente.




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