Quando
entrei no segundo ano do segundo grau, eu estava sozinha. As minhas três
grandes amigas do primeiro grau saíram da escola, duas pra uma e a terceira pra
outra, e os amigos que restaram no segundo grau, reprovaram no primeiro ano.
Entrei
numa turma com muita gente nova e alguns que sobraram do passado e já me
olhavam torto porque a filha do representante comercial e da dona de casa, com
sobrenome difícil e sem nenhum status social não merecia nem bom dia.
No
primeiro bimestre, sendo diariamente relembrada do meu crime de ser uma
adolescente de 14 anos gorda, deixei meu desempenho escolar cair bruscamente e,
da aluna exemplar nota 10, me tornei a aluna distraída nota 4.
Meus
pais, percebendo que isso ia terminar muito mal e sabendo qual era o motivo de
meu desempenho ter caído de maneira tão brusca, decidiram me trocar de escola.
Escolhi a escola onde estavam Camila e Alana. Era mais cara, seria mais
complicado para eles, mas eu já vinha de um histórico tão violento de bullying –
que culminou com duas surras ainda no primeiro grau, que ele julgaram que seria
um sacrifício válido, afinal, eu mantinha contato com elas e já conhecia alguns
futuros colegas.
O que
eu não sabia é que, ao mesmo tempo que nos encontrávamos na saída da escola e
eu me dava bem já com seus novos amigos, elas não desejavam efetivamente me ter
por perto e iniciaram uma campanha difamatória tão logo eu anunciei que
trocaria de escola. Eu estranhei quando, no meu primeiro dia, um desses amigos
delas gargalhou ao me ver de uniforme na porta da escola. Ele não me
cumprimentou, apenas riu, e minhas pernas tremeram.
Mesmo
assim eu entrei pro meu primeiro dia cheia de fé. As coisas nem de longe se
pareceram com as minhas fantasias, cheguei na escola e me vi imediatamente
sozinha. As meninas até falaram comigo, mas agora que eu estava lá oficialmente
colega delas outra vez, eu já não era mais da turma. Durante meses o maior
diálogo que tive com aquelas pessoas que eu acreditei que eram minhas amigas a
ponto de fazer todo um esforço para ser colega delas foi na psicóloga da
escola, que nos chamava com frequência tanto pelo isolamento promovido contra
mim quanto por fofocas de que eu seria louca por escrever poesia na aula de
química.
Porém,
poucas coisas me deixaram mais tensa do que receber duas notícias no mesmo dia:
sobre a campanha difamatória e sobre a eleição da rainha da escola. Perto do
final do ano, na época das festas de encerramento onde eram escolhidos o menino
e a menina mais bonitos da escola, uma pessoa me procurou pra contar que as
minhas adoradas amigas tinham contado história horríveis a meu respeito nas
vésperas da minha chegada, e essa pessoa achou muito estranho que meu
comportamento naqueles meses não era compatível com os horrores que circulavam
contra mim nos corredores da escola.
Por
essa razão, mesmo sem ser minha amiga e sem jamais ter conversado comigo, essa
pessoa me contou que o pessoal estava fazendo uma campanha de votos para que eu
ganhasse a coroa de rainha da escola. Ora, por óbvio eu, baixinha, gorda e
esquisita, jamais seria eleita a tal título por beleza, o objetivo era a
promoção da humilhação pública, já que não apenas toda a escola estaria na
festa, mas jovens de todas as outras escolas também. Aliás, sempre que eu
lembro dessa história eu penso em Carrie, a personagem de King, e do sangue de
porco.
Foram
noites de sono perdidas entre lágrimas e uma tensão absurda pelo medo do que
iria me acontecer. Eu estava com risco de reprovação por consequência das notas
horrendas do primeiro bimestre e porque a grade curricular das escolas era
completamente diferente, então pesavam sobre mim o medo de perder o ano, a
convivência com o isolamento e os pequenos bullyings do dia a dia e agora o
medo profundo de ser publicamente humilhada na festa de final de ano – a qual
eu obviamente não iria, nem por isso seria menos humilhante.
Numa
dessas noites insones em desespero, tive uma ideia. No dia seguinte, faltando
poucos dias pra festa, procurei a pessoa da escola que apuraria os votos,
expliquei a situação e deixei meu nome. A festa passou sem a minha presença e,
como não existiam redes sociais – mal e mal internet – eu só fui ter notícias
na segunda-feira. Ninguém na sala comentou o assunto e tudo o que eu soube da
festa pelos colegas foi quem pegou quem.
No
recreio procurei a pessoa que apurava os votos e recebi a notícia que partiu
meu coração (de novo). Sim, a campanha foi real. Ela me garantiu que mesmo que
ela não tivesse anulado meus votos, eu não teria chegado a ganhar o título, mas
sim, fui votada em peso pelas duas turmas do segundo ano.
Essa
nem de longe foi a pior coisa que me aconteceu, já que o objetivo deles não
chegou a ser concretizado, mas eu estava sozinha, tinha sido traída por quem eu
considerava amiga e precisava voltar pra aula. Como agir?
Tive
mais um ano inteiro cheio de histórias iguais ou ainda piores e saí da escola
sem saber como se age numa situação assim. Talvez eu nunca vá de fato aprender.
Acho que ninguém aprende.

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