sábado, 2 de abril de 2016

SOBREVIVÊNCIA – A rainha


                Quando entrei no segundo ano do segundo grau, eu estava sozinha. As minhas três grandes amigas do primeiro grau saíram da escola, duas pra uma e a terceira pra outra, e os amigos que restaram no segundo grau, reprovaram no primeiro ano.

                Entrei numa turma com muita gente nova e alguns que sobraram do passado e já me olhavam torto porque a filha do representante comercial e da dona de casa, com sobrenome difícil e sem nenhum status social não merecia nem bom dia.

                No primeiro bimestre, sendo diariamente relembrada do meu crime de ser uma adolescente de 14 anos gorda, deixei meu desempenho escolar cair bruscamente e, da aluna exemplar nota 10, me tornei a aluna distraída nota 4.

                Meus pais, percebendo que isso ia terminar muito mal e sabendo qual era o motivo de meu desempenho ter caído de maneira tão brusca, decidiram me trocar de escola. Escolhi a escola onde estavam Camila e Alana. Era mais cara, seria mais complicado para eles, mas eu já vinha de um histórico tão violento de bullying – que culminou com duas surras ainda no primeiro grau, que ele julgaram que seria um sacrifício válido, afinal, eu mantinha contato com elas e já conhecia alguns futuros colegas.

                O que eu não sabia é que, ao mesmo tempo que nos encontrávamos na saída da escola e eu me dava bem já com seus novos amigos, elas não desejavam efetivamente me ter por perto e iniciaram uma campanha difamatória tão logo eu anunciei que trocaria de escola. Eu estranhei quando, no meu primeiro dia, um desses amigos delas gargalhou ao me ver de uniforme na porta da escola. Ele não me cumprimentou, apenas riu, e minhas pernas tremeram.

                Mesmo assim eu entrei pro meu primeiro dia cheia de fé. As coisas nem de longe se pareceram com as minhas fantasias, cheguei na escola e me vi imediatamente sozinha. As meninas até falaram comigo, mas agora que eu estava lá oficialmente colega delas outra vez, eu já não era mais da turma. Durante meses o maior diálogo que tive com aquelas pessoas que eu acreditei que eram minhas amigas a ponto de fazer todo um esforço para ser colega delas foi na psicóloga da escola, que nos chamava com frequência tanto pelo isolamento promovido contra mim quanto por fofocas de que eu seria louca por escrever poesia na aula de química.

                Porém, poucas coisas me deixaram mais tensa do que receber duas notícias no mesmo dia: sobre a campanha difamatória e sobre a eleição da rainha da escola. Perto do final do ano, na época das festas de encerramento onde eram escolhidos o menino e a menina mais bonitos da escola, uma pessoa me procurou pra contar que as minhas adoradas amigas tinham contado história horríveis a meu respeito nas vésperas da minha chegada, e essa pessoa achou muito estranho que meu comportamento naqueles meses não era compatível com os horrores que circulavam contra mim nos corredores da escola.

                Por essa razão, mesmo sem ser minha amiga e sem jamais ter conversado comigo, essa pessoa me contou que o pessoal estava fazendo uma campanha de votos para que eu ganhasse a coroa de rainha da escola. Ora, por óbvio eu, baixinha, gorda e esquisita, jamais seria eleita a tal título por beleza, o objetivo era a promoção da humilhação pública, já que não apenas toda a escola estaria na festa, mas jovens de todas as outras escolas também. Aliás, sempre que eu lembro dessa história eu penso em Carrie, a personagem de King, e do sangue de porco.

                Foram noites de sono perdidas entre lágrimas e uma tensão absurda pelo medo do que iria me acontecer. Eu estava com risco de reprovação por consequência das notas horrendas do primeiro bimestre e porque a grade curricular das escolas era completamente diferente, então pesavam sobre mim o medo de perder o ano, a convivência com o isolamento e os pequenos bullyings do dia a dia e agora o medo profundo de ser publicamente humilhada na festa de final de ano – a qual eu obviamente não iria, nem por isso seria menos humilhante.

                Numa dessas noites insones em desespero, tive uma ideia. No dia seguinte, faltando poucos dias pra festa, procurei a pessoa da escola que apuraria os votos, expliquei a situação e deixei meu nome. A festa passou sem a minha presença e, como não existiam redes sociais – mal e mal internet – eu só fui ter notícias na segunda-feira. Ninguém na sala comentou o assunto e tudo o que eu soube da festa pelos colegas foi quem pegou quem.

                No recreio procurei a pessoa que apurava os votos e recebi a notícia que partiu meu coração (de novo). Sim, a campanha foi real. Ela me garantiu que mesmo que ela não tivesse anulado meus votos, eu não teria chegado a ganhar o título, mas sim, fui votada em peso pelas duas turmas do segundo ano.

                Essa nem de longe foi a pior coisa que me aconteceu, já que o objetivo deles não chegou a ser concretizado, mas eu estava sozinha, tinha sido traída por quem eu considerava amiga e precisava voltar pra aula. Como agir?

                Tive mais um ano inteiro cheio de histórias iguais ou ainda piores e saí da escola sem saber como se age numa situação assim. Talvez eu nunca vá de fato aprender. Acho que ninguém aprende.

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