terça-feira, 19 de abril de 2016

A rocha

                “E se não pudermos mais lutar?”

                Ele, fragilizado, se encolheu. Estava ferido. No corpo as marcas já não se mostravam mais, mas a alma permanecia despedaçada.

                Ela sorriu, um sorriso deveras tímido de quem fazia força pra não se deixar fraquejar. Ela não se deixaria abater por nada.

                “Nós conseguiremos.” – Respondeu com a voz rouca de quem tranca o choro.

                “Como você consegue?” – Perguntou ele, ainda no chão.

                Ela, de pé, com o corpo repleto de cicatrizes que por lá ficariam até o final de seus dias, respirou fundo. Não consigo – pensou em dizer – mas não era verdade, tanto conseguia que, apesar de tudo, ainda estava de pé.

                “Eles não me verão cair de joelho” – Respondeu firme. – “Ninguém jamais me colocará de joelhos outra vez”.

                Ele, do chão, sorriu. Ela era feita de ferro, de aço, de rocha. Tentaram de tudo para mantê-la no chão e fracassaram.

                “Façam o que fizerem, jamais me colocarão de joelhos outra vez”.

                Com as pernas firmes, colocando toda sua força para não deixar seus músculos demonstrarem a dor que lhe atravessava o corpo, estendeu a mão a ele.

                “Levante a cabeça” – Disse ela, firme.

                Como podia? Depois de tudo o que passaram, como podia se manter inabalável? – Pensou ele, chocado.

                Se pudesse responder ao pensamento ela diria – nenhuma alma morre duas vezes, a pior coisa que podia me acontecer já aconteceu, nada mais me fere assim. – Ela era o resultado do ápice da crueldade. Além de sangue, haviam arrancado dela sua capacidade de ter medo.

                E ela não tinha mesmo. Destemida e firme. De cabeça erguida, ignorou a dor e seguiu em frente.

                Ninguém a colocaria de joelhos outra vez.


Nenhum comentário:

Postar um comentário