segunda-feira, 7 de março de 2016

Coroa de flores

                Hoje matei você. Acredite, doeu muito mais em mim do que em você porque arranquei você no fio da navalha e você não sentiu porra nenhuma. Foi o meu sangue que escorreu, mas ainda assim, você morreu.

                Não haverá funeral. Ninguém faz cerimônia pra se despedir do que jamais deveria ter sido, do que não fará falta. Não haverá funeral porque era sua presença que eu costumava chorar.

                Mas não foi sem dó que matei você. Eu chorei feito louca, ouvi música de fossa, gritei, me contorci sobre meu próprio corpo exausto de lutar para que nossa história tivesse o final que devia ter. Depois de chorar, gritar, sofrer e arrancar pedaços de mim até sujar de sangue meus lençóis, acabou ficando fácil de entender que o final mais correto para nossa história é você longe de mim.

                Porque é pra longe que a gente manda aquele que pra longe nos manda.

                Não quero mais teus abraços porque são feitos de espinhos e eu realmente estou cansada de cuidar de tantas feridas. Horas e horas de curativos para dizer que lutei por nós? Não, bem mal, não mesmo. Pra mim chega.

                Os cactos são capazes de me ferir menos do que você me feriu.

                Pensei em nomear nosso enterro das cinzas de coroa de espinhos, mas nem no título admitirei mais feridas. Coroa de Flores. É isso que mandam aos mortos. E é de flores que me permitirei ser rodeada daqui pra frente.

                Descanse em paz. 


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