Criei
Leandra em março de 2016. Mas Leandra não nasceu da noite pro dia; Leandra, de
alguma forma, já habitava em minha mente há muito tempo.
Nasci e
fui criada na serra gaúcha, terra de imigração italiana com total predominância
branca, por isso, de certa forma, era comum que nossa convivência fosse quase
que exclusiva com gente branca. Porém, as pessoas negras sempre existiram e sua
exclusão se repetia por aqui.
Como
gordinha na infância (obesa hoje), fui eu a rejeitada da turma. Nesse meu ciclo
de rejeição conheci a única menina negra da escola. Eu não tinha a noção exata
da discriminação que ela sofria, fui entender depois de adulta que éramos ambas
rejeitadas, até então eu acreditava que ela não tinha problemas em ser vista
com a gorda puramente por caridade.
Certa
feita testemunhei discriminação pública daquela menina por quem eu nutria um carinho
gigantesco, e foi ali que Leandra começou a nascer.
Leandra
é o resultado de muitas e muitas horas fazendo o que todos deveriam fazer:
escutando e aprendendo com a vivência de quem sabe, na pele, o que é ser vítima
de racismo. Eu, branca, jamais saberei, mas me despi de mim mesma enquanto
Leandra contava sua história.
É dela
a caminhada. Leandra não sou eu, ela é dona de sua própria história e eu seu
instrumento. É o resultado de anos de escuta, aprendizado, de reconhecimento do
meu lugar na luta contra o racismo: na linha de desconstrução.
Hoje,
dia da consciência negra, homenageio Leandra como a soma de tantas histórias de
dor e de luta que me circulam entre tantas mulheres e homens que já nascem
precisando lutar pra sobreviver. Todas essas vozes me ensinam diariamente
preciosas lições e sua dor transformou Leandra de uma simples criação à
personagem mais complexa que já criei.
Às
mulheres negras da minha convivência e a tantas outras que ainda quero ter a
honra de conhecer: vocês são tudo o que Leandra lutou para ser.
Minha
reverência, admiração e meu respeito.
A ilustração está assinada pelo artista, mas não consegui identificar o nome pra citar aqui
*Leandra é a personagem central e narradora do livro Histórias de Minha Morte, com lançamento previsto para abril de 2017.

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