terça-feira, 7 de junho de 2016

2 anos sem o gigante

Em julho de 2007, fui ao Beira-Rio, em Porto Alegre, entregar ao meu ídolo Fernandão um conto que eu havia escrito em sua homenagem.

O conto permaneceu guardado na gaveta até que, em 07 de junho de 2014, meu único ídolo do esporte faleceu tragicamente em um acidente de helicóptero. Na ocasião, publiquei no meu antigo blog em sua homenagem.

Hoje, no aniversário de 2 anos sem o gigante, republico nesse blog.


O dia em que o futebol renasceu

            Sexta-feira, um fenômeno único chama a atenção de todos os habitantes do planeta Terra. Sol, todos os planetas do sistema e seus satélites naturais se alinham de maneira inexplicável. Astrônomos com os olhos virados em telescópios, NASA em alerta absoluto, adeptos da teoria do caos já preveem tragédias em massa ao redor do planeta. As autoridades de todos os países planejam a sobrevivência da raça humana depois do advento de um alinhamento jamais concebido nem nas teorias mais infundadas.

            E naquele estado de alerta generalizado, ao longo de todo o final de semana ouviu-se aterrorizadas exclamações em todos os idiomas:

            - Uuuuhhhh!

            - Não!!!!

            - M&*%#ND$%&MN!!!!!

            Passado o fatídico final de semana, representantes da ONU se encontravam em seus postos aguardando o bombástico relatório das conseqüências de tão grave alinhamento. Foi então que, na porta do plenário, surgiu ninguém mais, ninguém menos que... o presidente da FIFA!

            A tragédia estava comprovada: brigas de torcida, goleiros sentindo-se milagreiros, artilheiros em severas crises de depressão, dirigentes reunidos ao redor do globo na busca desesperada de explicações. Em laboratórios de alta tecnologia, milhares de bolas eram destruídas para estudos científicos, traves eram arrancadas dos gramados e minuciosamente analisadas, placas inteiras de gramado eram retiradas dos principais estádios e autores dos piores gols perdidos passavam por uma bateria de exames físicos e neurológicos.

            - Temos uma conclusão? – questionou o presidente do Uzbequistão sentado em sua tribuna. O presidente da FIFA, afrouxando o nó da gravata e secando a testa com o lenço do paletó olhou seriamente para os colegas ali presentes com uma pasta na mão.

            Sentando-se em uma tribuna reservada à ele para a ocasião, o homem retirou um imenso relatório da pasta, ajeitou o óculos sobre o nariz, pigarreou levemente e pôs-se a falar.

            - Não temos ainda todos os dados, mas temos pessoas pesquisando em todas as partes do mundo. Porém, já temos uma constatação: todos os jogos oficiais do planeta terminaram empatados e sem gols.

            - O senhor está nos dizendo que tivemos um placar universal de zero a zero em jogos oficiais? – Levantou-se o presidente da Sibéria claramente alterado.

            - Nobre presidente, a constatação é ainda pior. – Seguiu o presidente da FIFA. – Temos notícia de um número aproximado de um milhão de jogos não-oficiais com o mesmo resultado.

            - O que o senhor quer dizer com jogos não-oficiais? - Questionou o presidente do Cazaquistão

            - Me refiro a todos os jogos que não valem títulos reconhecidos pela FIFA, como peladas de final de semana entre grupos de amigos e empresas. – Imediatamente todos os presidentes de todas as nações representadas na ONU começaram a falar ao mesmo tempo, quando cessou a confusão, o presidente da FIFA seguiu seu discurso. – Senhores, o dado é ainda mais alarmante do que podem imaginar, tivemos milhares de pênaltis perdidos e uma final de campeonato teve que ser suspensa depois de quase cinco horas ininterruptas de cobranças de pênalti sem que o placar se alterasse.

            - Meu Deus....- sussurrou o presidente iuguslavo, encostando a cabeça em sua tribuna entre às lágrimas.

            A imprensa mundial, sensacionalista, tratava o fato como o fim do futebol. Um homem, que declarava ter recém retornado da abdução, foi à público noticiar que não houveram gols em Marte também, e que o comandante do disco voador comentou que o mesmo aconteceu em Júpiter, Vênus e Saturno.

            O resultado da tragédia era imenso, 122 mil jogadores anunciaram aposentadoria, 18 mil árbitros assinaram contratos com editoras para lançar livros sobre o fato, 37 mil atacantes saíram lesionados depois de chutarem as traves, 425 mil bolas de futebol foram estraçalhadas em nome da ciência, 273 mil goleiros resolveram abrir sua própria igreja e 9 gandulas foram convidados para posarem nus.

            Durante toda aquela semana não houve jogos de futebol em nenhuma parte do planeta, milhares de teorias foram levantadas, torcedores traumatizados procuravam explicações e o medo do fim do futebol provocou crises de estresse e depressão em massa. Os hospitais ficaram lotados, psicólogos, psiquiatras e cardiologistas ficaram com as agendas lotadas, os estádios de futebol recebiam flores e faixas pretas como demonstração de luto, grupos religiosos uniam-se em nome da volta do futebol... a comoção era global.

            Um homem, um gaúcho, estudando as posições do planeta, convocou a imprensa no sábado seguinte ao fenômeno. Sua teoria era de que todos os planetas e satélites alinhados formaram uma grande barreira cósmica, impedindo que qualquer objeto redondo ultrapassasse seus limites, como se o universo fosse uma grande goleira.

            Independente da crença de cada um, dirigentes de futebol se reuniram e, em comum acordo com a FIFA, arriscaram realizar uma única partida naquele final de semana. Os planetas lentamente desalinhavam o mundo merecia essa segunda chance. Naquele domingo, a imprensa do mundo todo e torcedores de todas as partes do globo concentrava-se no Beira Rio, esperando desesperadamente por um gol, apenas um, para trazer de volta a esperança.

            Durante todo o jogo, as pessoas roíam unhas, era certamente o jogo mais importante da história da humanidade. Os eternos rivais Grêmio e Inter jogavam com garra o Gre-Nal mais sofrido de todos os tempos. Ambos jogavam com altíssimo nível, um jogo quase sem faltas, disputadíssimo, mas cada gol perdido arrancava uma lágrima de cada uma das pessoas, milhares delas, que acompanhavam o jogo histórico em todo o planeta Terra e até mesmo fora dele.

            A esperança se esvaía em lágrimas quando o cronômetro indicava que faltava menos de um minuto para o fim da partida e nenhum gol havia sido feito, mesmo com a qualidade indiscutível no ataque dos rivais. Foi então que, praticamente aos 45 do segundo tempo, em um contra-ataque quase sobrenatural, raspando na trave, a bola entrou. Fernandão, do Internacional de Porto Alegre, foi o autor não de um gol, mas da renovação da crença em uma vida melhor.

            Talvez o mais marcante naquele gol foi a emoção que tomou conta de todos: só houve um homem, um único homem, que não celebrou o gol: o goleiro do Grêmio. Todo o restante da população mundial vibrava, crianças, adultos, idosos, homens e mulheres choravam juntos, por algumas horas o planeta inteiro dividia o mesmo sentimento.

            A partir daquele dia o futebol voltou ao normal, os gols voltaram a acontecer, as torcidas infelizmente voltaram a brigar, Fernandão foi aclamado herói universal e ganhou estátua nos principais estádios do mundo; dos 122 mil, somente 6 jogadores efetivamente se aposentaram, 14 mil árbitros tiveram os contratos para livros cancelados, os 37 mil atacantes se recuperaram bem, as 425 mil bolas foram refabricadas com o autógrafo do novo herói estampado, as 273 mil novas igrejas conquistaram algumas dezenas de fiéis cada uma e somente 4 dos 9 gandulas posaram nus.


Maya Falks      

Na entrega do conto ao gigante.

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