terça-feira, 17 de maio de 2016

Conto de fadas

                Érica um dia se apaixonou por Mônica.

                Érica era uma garotinha perfeitamente normal. Criada num lar tradicional, tinha conjuntos de panelas e vestido de princesa. Mônica também.

                Cassiana odiava rosa. Vivia com as pernas roxas andando no skate todo lascado do irmão. Ele preferia modelar estatuetas de gesso. Cassiana preferia cabelos curtos porque não esquentava tanto o pescoço e amava azul – era a cor do céu, dizia.

                Canelas roxas, cabelos curtos, bermuda azul, Cassiana se apaixonou por Marcos.

                Luciano gostava de academia. Careca marombado, escorria testosterona por seus poros. Sob ele, o coração batia mais forte por Rafael, que tinha aquele sorriso lindo e sabia todas as músicas da Cher.

                Mônica dançou valsa com Érica no seu baile de 15 anos. As duas com vestidos que mais pareciam feitos de chantilly.

                Felipe nasceu Fernanda.  Amar Tadeu só complicou a coisa, afinal, Fernanda e Tadeu eram um casal tão fofo, já Felipe e Tadeu arrancavam olhares desconfiados por onde passavam. Felipe, quando entendeu porque seu coração nunca estava feliz e resolveu ser ele mesmo, nem ligava se ele e Tadeu não eram o que o mundo queria. Eles eram o que eles mesmos queriam, e isso é que importava.

                Marcos ia ser advogado, vivia de terno, pomposo e engomado, mas a tatuada Cassiana lhe parecia tão ideal... uma vida inteira sendo chamada de sapata e quem diria, Cassiana casaria com o “doutor”.  Alargador na orelha, piercings no nariz, “Love” com uma letra em cada dedo. A delicadeza da aliança contrastou com a rebeldia de um vestido vermelho inteirinho de retalhos.

                Rafael entrou na suíte nos braços fortes de Luciano. Recém-Casados estampado no carro. Érica e Mônica estavam lá, bem na hora, agendando a data no cartório. Um dia antes Felipe, ainda formalmente Fernanda, trocava juras de amor com Tadeu.

                No fim das contas tava todo mundo muito feliz.

                Menos Jairo, um pobre-coitado enxotado de casa por chifrar a mulher, que passa os dias na frente do cartório se cuspindo todo entre mil palavrões contra a felicidade desses casais. O sangue nos olhos, a baba que salta entre um palavrão e outro e a amargura em seu coração é tudo o que lhe resta.

                Coitado.


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