Érica
um dia se apaixonou por Mônica.
Érica
era uma garotinha perfeitamente normal. Criada num lar tradicional, tinha
conjuntos de panelas e vestido de princesa. Mônica também.
Cassiana
odiava rosa. Vivia com as pernas roxas andando no skate todo lascado do irmão.
Ele preferia modelar estatuetas de gesso. Cassiana preferia cabelos curtos
porque não esquentava tanto o pescoço e amava azul – era a cor do céu, dizia.
Canelas
roxas, cabelos curtos, bermuda azul, Cassiana se apaixonou por Marcos.
Luciano
gostava de academia. Careca marombado, escorria testosterona por seus poros.
Sob ele, o coração batia mais forte por Rafael, que tinha aquele sorriso lindo
e sabia todas as músicas da Cher.
Mônica
dançou valsa com Érica no seu baile de 15 anos. As duas com vestidos que mais
pareciam feitos de chantilly.
Felipe
nasceu Fernanda. Amar Tadeu só complicou
a coisa, afinal, Fernanda e Tadeu eram um casal tão fofo, já Felipe e Tadeu
arrancavam olhares desconfiados por onde passavam. Felipe, quando entendeu porque
seu coração nunca estava feliz e resolveu ser ele mesmo, nem ligava se ele e
Tadeu não eram o que o mundo queria. Eles eram o que eles mesmos queriam, e
isso é que importava.
Marcos
ia ser advogado, vivia de terno, pomposo e engomado, mas a tatuada Cassiana lhe
parecia tão ideal... uma vida inteira sendo chamada de sapata e quem diria,
Cassiana casaria com o “doutor”.
Alargador na orelha, piercings no nariz, “Love” com uma letra em cada
dedo. A delicadeza da aliança contrastou com a rebeldia de um vestido vermelho
inteirinho de retalhos.
Rafael
entrou na suíte nos braços fortes de Luciano. Recém-Casados estampado no carro.
Érica e Mônica estavam lá, bem na hora, agendando a data no cartório. Um dia
antes Felipe, ainda formalmente Fernanda, trocava juras de amor com Tadeu.
No fim
das contas tava todo mundo muito feliz.
Menos
Jairo, um pobre-coitado enxotado de casa por chifrar a mulher, que passa os
dias na frente do cartório se cuspindo todo entre mil palavrões contra a
felicidade desses casais. O sangue nos olhos, a baba que salta entre um
palavrão e outro e a amargura em seu coração é tudo o que lhe resta.
Coitado.

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