quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Volta e meia - parte 7


                Hoje acordei sozinha. Talvez você possa pensar que não é nenhuma novidade, já tem quase um mês que o Matias foi embora, é óbvio que eu acordei sozinha. Mas hoje foi uma solidão diferente, mais aguda, dolorida mesmo.

                Matias era o legítimo canalha; me traiu tantas vezes que nem ele saberia contar. Me traiu com uma garotinha vulnerável e foi aí que meu coração não aceitou mais tanto chifre. Na real, ele aceitou, quem deu o basta foi o cérebro.

                De lá pra cá me tornei catatônica para o mundo pra poder sobreviver. Desde uma lamentação fúnebre pelo fim do meu casamento, até acusações de incompetência genital por não ter segurado aquele homem entre as pernas. Quando você encerra um relacionamento longo como o nosso, que se junta a um casamento do jeito que a sociedade gosta, todo mundo te julga.

                Casamos na igreja. Eu estava de branco, moça casta – ou pelo menos dizem que eu não tenho a tal cara de vadia que eu ouço gente chamando várias das minhas amigas. O casamento ideal, de deixar papai orgulhoso. Não o meu, né? Meu pai era o típico cidadão de bem, religioso, viril e um grandessíssimo filho da puta (com todo respeito às putas que não merecem tal comparação).

                E esse foi meu casamento: o homem provedor, macho, “gentleman”. Eu a moça pura, de família, casei sabendo cozinhar e exatamente que produto deixa o chão mais lustroso. Não casei virgem porque óbvio que Matias não esperaria a noite de núpcias pra me comer, mas eu realmente não fazia grandes questões de sexo antes do casamento.

                Matias foi meu primeiro homem. Eu havia namorado antes mas sexo mesmo, só com ele. Foram quase 10 anos de casamento e mais algum tempo de namoro e ele seguiu sendo meu único homem mesmo eu sabendo que toda vez que a gente transava, o pinto dele vinha de dentro de outra mulher.

                Aliás, isso foi uma coisa que quase me levou a entrar em parafuso, pensar que dentro de mim ele colocava um pouco de cada mulher com quem ele me traía. Eu as odiei por muito tempo, mudou tudo quando ouvi a voz da Analú, foi ali que eu entendi que essas mulheres apenas exerciam sua liberdade sexual, quem traía era ele, exclusivamente ele.

                Fiquei pensando nos discursos preconceituosos daqueles que juram defender a família quando esta se encaixa nos moldes que eles julgam ideal. Fiquei pensando o quanto minha família é vista por eles como sagrada quando eu tenho uma pilha de meios-irmãos que foram criados sem pai, quando vi o meu pai saindo de casa pra escolher com qual família tradicional sagrada ele iria ficar, quando vi minha mãe entrando em depressão porque ele destruiu a autoestima dela.

                Me dei conta que eu também poderia ter formado uma família sagrada. Não tivemos filhos mas éramos vistos como o casal ideal; um casamento tradicional com tudo o que a sociedade espera, e uma esposa em casa, com o jantar na mesa apenas esperando seu querido maridinho voltar do motel com uma das várias mulheres que ele seduz apenas para transar.

                Lembrei da Gê. A Gê é a moça corretíssima que defende sua aliança no dedo como a coisa mais linda e importante do mundo. A Gê é contra famílias não tradicionais, acha um absurdo que casais homossexuais queiram o mesmo status que seu casamento socialmente impecável. A Gê leva chifre todo dia. A Gê apanha do marido.

                Tá tudo errado com o mundo. Tá tudo errado com o meu coração. Me pego acordando num domingo com o coração sangrando de saudade de um canalha que me usou e me manipulou livremente. Me pego chorando, sofrendo, tendo que me segurar pra não ligar pra ele e pedir que volte pra mim.

                Não há nada mais doloroso do que amar genuinamente uma pessoa que não merece sequer nosso desprezo. Eu amo Matias, mas sou boa demais pra ele.

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